sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Poema supérfluo

É aí que eu paro e penso
que não há ninguém no mundo
pra quem eu possa ser alguém
que lhe dê algo de novo
sou alguém além do povo
que prossegue e que sorri
eu sou mais como um estorvo
ou um diamante novo
para o colecionador
não sou centro nem recheio
sou o para o trigo o centeio
sou supérfluo, meu amor.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Vazio

Certa vez eu disse
amo você
e meu dizer foi só eco
do que você já dissera.

Logo um eco!
Logo o eco, que é a medida do abismo!

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

A mulher na banheira

Ali, na sala de banhos, a mulher ouvia aquela canção no rádio, que vinha ondulando pelo ar frio da cidade lá fora, uma cidade que, malgrado toda a luz que lhe dava esse aspecto tão pomposo de uma cidade cheia de si, dormia com uma expressão tristonha sob suas pálpebras cerradas. A mulher nua pensativa na banheira fumegante, cuja água clara refletia a luz amarelada da luminária logo acima. Sob a água, via-se seu pescoço muito branco e fino, seus seios rígidos e pequenos, seu ventre absolutamente plano, seus braços lânguidos que acariciavam suas coxas magras e alvas, e, sob a água, seu sexo negro se destacava da brancura do seu corpo iluminada pela luz amarelada da luminária acima. Seus louros cabelos molhados desmanchavam um penteado que parecia ter sido feito com um esmero quase sobrenatural.

A mulher na banheira tinha uma expressão não se sabe se cansada, triste ou simplesmente pensativa, suas pálpebras pendiam sobre seus olhos castanhos, cílios longos escurecidos pelo rímel de algumas horas antes, maquiagem carregada, batom vermelho. Seu rosto parecia escutar atento àquelas notas que chegavam ondulando ao rádio do quarto ao lado, àquela voz feminina rouca na medida exata, e a fumaça do seu cigarro dançava lentamente ao som daquela música de depois do amor. Uma mão levando o cigarro da marca favorita à boca, outra mão acariciando os mamilos rijos e fazendo ondular a superfície da água acima. O olhar perdido e cansado da mulher na banheira eram a expressão mais externada do seu pensamento. O Sena estava calmo e não murmurava nada à lua no céu. A mulher na banheira ouvia a música, fumava o cigarro, acariciava seu corpo e pensava.

Pensava nas mãos que percorreram aqueles exatos caminhos em seu corpo minutos antes, pensava naqueles olhos escuros que a olharam com uma faísca que ela jurava ter visto lá no fundo. Lembrava e relembrava o modo como aquele homem a segurara para que não fugisse às suas carícias, recordava do modo como os dedos do seu amante deixaram marcas em suas costas brancas. O cigarro acabava entre seus dedos que pareciam não estar ali, mas ela não se deu conta. Só se fixa à memória do modo como ele tirara suas vestes de festa, de como selvagemente ele abrira sua própria camisa fazendo cair um botão a que ninguém deu importância. De como ele chamava por ela quando ela se desvencilhava de seus braços para tirar os lençóis de sobre a cama perfeitamente arrumada. A mulher nua na banheira não podia esquecer dos lugares por onde tinha passeado sua mão em uma dança ora doce, ora frenética há poucos minutos antes. Não podia parar de pensar no modo como ele a puxara para a cama que não havia sido aberta por completo, de como ele a tomara por assalto e do modo como ele a invadira, sem dó, sem valor, sem idéia, com apenas um pensamento fixo e permanente: tê-la para si naquele momento. Ela não podia esquecer os sons que preencheram seus ouvidos, as sensações que preencheram sua alma e os prazeres que preencheram seu corpo.

Relembrou, agora com um sorriso discreto em seus lábios vermelhos, do fim ofegante daquele espetáculo. Lembrou de como se deitara na cama e pusera sua cabeça sobre aquele homem, há pouco tão rijo e agora mortificado pelo cansaço que lhe trouxera o amor. Não sabia a mulher quanto tempo durara essa ordem estável em que permanecera junto do seu homem, junto da personificação de toda sua paixão acumulada pelos poucos anos e pela vasta experiência. A mulher, colocando o cigarro no cinzeiro que se encontrava ao lado da banheira, logo abaixo da luminária amarelada, lembra-se do momento em que seu amante se levanta, se veste e lhe diz: il faut que je te laisse, maintenant. Ela nada diz, só o observa nua na cama, lhe assiste sair do quarto ajeitando a gravata. Ainda sem nada dizer, levanta-se e vai para o banho.

A mulher na banheira pisca os olhos rapidamente três vezes, levanta-se e se envolve na toalha. Se enxuga sem pressa e segue para o espelho, onde retoca a maquiagem carregada. Depois de algum pensar, decide por soltar seus cabelos louros, o que lhe dá um ar infantilizado mas malicioso. Com um pouco de esforço, põe de volta o vestido e sai da sala de banhos em direção a seu quarto, onde o rádio ainda tocava aquelas canções tão em voga. Deitou-se na cama, acendeu outro cigarro. O rádio cantava je me fous du monde entier tant qu'l'amour inond'ra mes matins... Ela põe o cigarro no cinzeiro que havia no criado-mudo, onde estava o dinheiro que lhe deixara o homem que acabara de partir.

Fumou seu cigarro para esperar o próximo.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Sobre mim

Se for o sol satélite da Terra,
vou olhá-lo, pra ver até onde vai.
Vou prestar atenção nas andorinhas,
nas velhinhas, nos amantes de primeira viagem.
Preciso olhar o mundo sob a ótica serena do amor.
Preciso seguir lentamente para sentir o cheiro da flor
preciso colher a flor, preciso cheirar a flor,
preciso cuidar da flor e levar a flor pra ela.
Vou procurar a ficha da beleza no arquivo cinza dos dias nublados.
(Será que ela é inocente?)
Ela quer que eu fale e beije, falarei e beijarei
mais que se possa imaginar, serei um beijador incrível
e minhas conversas durarão horas e jamais serão enfadonhas.
Ela quer que eu diga eu amo você em todas as horas
em todos os lugares, por todos os caminhos e em todas as cadeiras
de todos os restaurantes e salas de aula e cinemas multiplex,
então direi, e não terá ainda sumido a marca que
minha fala deixará em seus ouvidos e eu já terei dito novamente.

Se for o mar o suor do amor entre a África e a América,
vou me banhar de suor, sempre que ela tiver aquele olhar diferente
e aquela carinha que ela reservou para poucos.
E buscarei no mar uma resposta exata para essa coisa humana
que é o amor, e não encontrarei, mas me permitirei
ingenuamente concluir apenas que o mar é enorme.
Não vou me culpar por não conseguir descrever o mar em poesia,
não vou tentar fazer mais grandes poemas, desisto,
a vontade de desistir diante da minha janela é arrebatadora demais.
Quero vê-la todos os dias entrando neste prédio,
pegando o elevador, apertando o catorze e se abrindo em amor gratuito.
Porque dela eu não desisto, não adianta, não importa o que aconteça.
Fossem tantas as decepções, as ofensas à minha virilidade,
as omissões da realidade, o sadismo, a loucura e a espera infinita,
eu teria dito basta e teria ido buscar outra alegria em outro lugar
talvez no continente, onde o mar não pudesse ser avistado
nem do ponto mais alto da torre de TV.

Se for a terra a prova da imortalidade dos que se foram,
terei menos medo do tempo, da fugacidade,
e jamais me deixarei apossar pelo efêmero.
Não terei mais pressa na vida, não correrei aos afazeres:
tenho mais dez anos e todas as vontades do mundo.
E ela virá comigo, espero, e estará comigo,
e me amará sem medo, me fará sorrir e me perguntará
o que você está olhando? já sabendo a resposta ensaiada.
Só é preciso que ela me olhe sempre do mesmo jeito
que me queira da mesma maneira, que ignore meus maus humores,
que acabe com minhas dúvidas sobre um futuro que abandonei
antes mesmo que pudesse ter a chance de existir.
Que esteja em casa quando eu ligar, que não me insulte
quando eu fizer um carinho bobo de namorado antes de desligar o telefone,
que abandone as prenoções dos amigos e me deixe amar
desse jeito, que nunca me fez e que eu nunca fiz tão bem.