sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Le souci

Il y avait pas de poésie
Tu m'as dit

Et j'ai souri
Le vieux sourire
De ceux qui crient
Sans faire du bruit

sábado, 1 de dezembro de 2012

Poema incompleto de duas cidades


I

Dói-me uma dor pungente olhar a cor do papel, creme,
tão lisa, entrecortada pelas pautas imperativas
muitíssimo bem traçadas, como barras de uma cela
ou como marcas de uma régua que indicasse
a retidão de um caráter a ser pregado na parede,
com suntuosa moldura, folhas de ouro,
louros de todas as partes, elogios de academias,
e paixão de todas as fêmeas.
O papel que se estira vazio por sobre o caderno preenchido
até menos da metade, marcador de páginas
prostrado por sobre o último poema, de já faz meses,
quando um dia tedioso ainda nem imaginava
que hoje seria um eco perfeito do tédio
que aquele primeiro já havia deglutido.
Dói-me aperceber-me do tempo que decorre como máquina
que nunca quebra, desconhece pane, e que corta grama
— ah não, esse é na verdade o filho do vizinho
que espalha rumor de lâmina e cheiro bom de mato
enquanto cumpre sua pena por um mau comportamento.
Dói-me ver que sou uma galante frustração:
tudo aquilo que poderia ter sido, não fui,
os caminhos que para mim se abriram com letreiros luminosos
mostrando tão vigorosamente o destino correto para a vida,
por eles não segui, e preferi virar a esquina,
num delírio de mártir em que foi ensinado que o caminho das luzes
deve ser preterido em face do caminho de espinhos.

É um tédio profundo, esse que me enche os pulmões
quando respiro o ar abafado que não sopra
de parte alguma, e que asfixia o mar,
e que sufoca a terra, e que me mata solenemente
de uma morte dolorida e inacabável.
É um tédio que faz surgirem em sobressaltos,
perante meus olhos que mal se abrem,
todas as legislaturas, as jurisprudências,
as doutrinas que tudo sabem salvo melhor juízo
e a arte que em Estagira não se soube separar
da aridez da ciência e do éter da Metafísica.
Invade-me as narinas o cheiro acre do sêmen derramado ao chão,
do vinho que na geladeira se transsubstanciou em vinagre
e do iogurte que resolvi tomar, mas que estava podre.
Na geladeira guardei também dezenas de elogios
que me foram presenteados de quatro cantos, não sei onde
e que envolviam, entre outras, as palavras gênio, salvador e amante.
Certa vez, quando por um instante me senti pobre de espírito
e estreito de pensamento, tive a ideia de correr à geladeira
e abrir o tupperware onde os havia guardado:
nada restava senão gorgulho e pó.

É a vida, meus caros, que por vezes regozija,
assentada em sua cadeira decrépita de pedra,
como as celas de antigas prisões enevoadas de poeira,
dos tombos que os homens dão pelas calçadas mal niveladas.
É a vida que, sempre de esguelha, olha por aqueles que triunfam,
ainda que muito brevemente. A vida é nódoa no brim.
A vida que nos obriga solenemente a discutir assuntos superados
em infernais salas de aula de mestres incompetentes,
e que nos coloca sorrindo em frente a mil encruzilhadas,
e que nos prende no trânsito quando estamos prestes a pegar o trem
das seis da manhã, que nos levaria fumegante
a qualquer lugar que ressoasse o brilho flácido da aurora.

A noite está calma e quente nesta cidade triste.
Apenas um par de grilos quebra a lisura do silêncio
que se esparrama por sobre as casas
feito espelho-d'água.

II

Do alto do meu apartamento de um só comodo,
em que uma quina separa quarto e sala, e em que o piso
que continua diferente revela a cozinha,
olho minha ampla vista da janela aberta para as luzes oscilantes
de uma distância aonde o metrô nem mesmo chega.
As mansardas que nos separam não exibem luzes nas janelas
como se a única iluminação possível
fosse aquela que a tantos quilômetros se projeta infirme.
O caderno de folhas creme está ao alcance do dedo
e seu marcador de páginas não se encontra longe de onde estava
meses atrás.
A janela de vidro irradia para dentro
os três graus negativos que lá fora congelam tudo
e que me endurecem as juntas enquanto tento uma destreza monótona
no teclado do computador.
Os vizinhos não têm filhos.
Ou pelo menos não sabem de sua existência, talvez incerta,
decorrente de uma festa interessante em Estocolmo
ou de um vinho maltomado em Estrasburgo.
Uma vez uma mulher com quem já tive
um breve relacionamento
(mas marcante ao ponto de ser citado em um poema de 2012)
me contou temer que seu amante novo, de beleza exemplar,
elegância idem e muita poeira nas solas,
pudesse ter tido um filho concebido
à beira da garganta inflamada de um mar afeito a congelamentos.

Meu medo da passagem do tempo como máquina,
que soa como um cortador de grama que me vai cortando as pontas dos dedos
ou como um ar-condicionado que em vez de trazer, mata o conforto,
me levou a partir uma madrugada
levando apenas roupas e livros,
em direção a uma cidade suspensa da realidade insípida.
É aqui, onde ninguém conhece o gênio, o salvador ou tampouco o amante
— porque não houve tempo para que eu tirasse a roupa por inteiro —,
que eu busco uma caverna para hibernar
até que um dia quem sabe uma primavera
venha cobrir de sol o solo estéril
do que sobrou do paraíso.
E chorarei sempre que disser
minha mãe que conseguiu me juntar um dinheirinho
Lúcia que fez o meu prato predileto, e que enquanto temperava, chorou
meu irmão que o São Paulo vai ser com certeza campeão sul-americano
e meu pai nada, porque me sente, sem muito bem me compreender.
Minha mãe não tem dinheiro para esconder as lágrimas
Lúcia não tem ninguém, Lúcia é nossa e somos dela
meu irmão chora em minha cama e me abraça sempre que volto
e meu pai sabe que ama, mas quer proteger o que não se protege.
E não foram poucas as vezes
em que tentei me desvencilhar das amarras
que atei em torno dos pulsos
para voltar para casa, e me banhar no mar que planeja,
secretamente,
me assassinar afogado.
Meu apreço ensandecido pela dor fala tão alto
dentro de minhas orelhas geladas
que até em minha fuga tento morrer a cada esquina.