quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
Para minha linda menininha
Foi tão bonito quando hoje mais cedo eu me lembrei de você, minha linda menininha... Parei meu relógio e me sentei na calçada só pra ver a vida, o mundo passar na minha frente. Sinto isso mais ou menos como a água fresca que escorre pelos meus cabelos demoradamente quando eles estão compridos, e isso me traz um saudosismo racional e puro como uma pergunta de criança. Mas por quê? Por que eu me pego de uma hora para a outra pensando na mesa de jantar cheia de comida de festa que eu preparei pra você um dia desses? Por que eu fico pensando naquela vez que eu aluguei aquela bicicleta esquisita de dois lugares pra pedalar com você? Por que eu me recordo docemente daquele piquenique que eu preparei à beira do lago pra mim e pra você? É um sentimento tão simples e puro, tão infantil, às vezes, até. E tudo isso (ou só isso) me faz falar de amor com tom de voz sereno durante horas a fio através do fio do telefone, e não parece durar mais que os deliciosos cinco minutos de um jovem sonolento ao acordar. Tudo me lembra você. A brisa que balança a folha da planta, a luz do sol nascendo entrando tímida pela janela, o leite gelado de manhã, tudo me remete imediatamente ao seu rosto radiante como um girassol amarelo. (Sua flor preferida não me vêm à mente, mas a singeleza dos girassóis sempre me faz lembrar de você.) Tenho uma foto sua aqui e, às vezes, quando estou sozinho, abro devagarinho a pasta onde ela está escondida dos olhares curiosos só pra sentir o coração pular ao ver seu sorriso lindo, só pra ter aquele calafrio que se sente quando surge uma paixãozinha platônica de criança. Você me faz sentir como uma criança. Sorrio levemente ao erguer sua foto até perto do meu peito que pula, quero ter você para todo o sempre. Então eu me lembro de novo da mesa de comida que eu preparei pra você, à qual eu sentei e comi sozinho. Lembro da bicicleta de dois lugares pesada que me deu tanto trabalho pra pedalar sem a ajuda de ninguém. Lembro do piquenique que eu preparei pra nós dois, eu não toquei na comida que tinha levado pra você. Sorrio inocentemente como uma grávida sem marido.
Pequeno poema em prosa
Sim, é verdade, quando eu ouvi a merda da música linda eu me lembrei de você.
E daí? Não quero saber desse amor que não passa de uma bajulação fútil do menino prodígio que fala francês e italiano antes da maioridade hipócrita. Queria sinceramente ter o poder extraordinário de ser livre para pensar o que quisesse na bênção da ignorância. Desculpe por não poder pensar. É que as hidroxilas estão pulando no meu pobre e pequeno cerebrozinho. O vício na palavra desvirtua as pessoas de bem. E é mesmo por isso que eu imito Baudelaire e escrevo meu paraíso artificial mais lindo, que é a sobriedade da opinião do mundo adormecido e entorpecido e insosso. Se ao menos as populações esquecessem os tempos e os futuros e os presentes e os passados e suas dúvidas e medos e receios e poemas velhos e casos amorosos o mundo poderia talvez às vezes ser melhor. Não quero querer mais nada, na verdade.
O problema é que eu não consigo, o cheiro de jasmim das putas de nova orleans é mais forte que a gravidade do buraco negro que compôs o melhor blues.
E daí? Não quero saber desse amor que não passa de uma bajulação fútil do menino prodígio que fala francês e italiano antes da maioridade hipócrita. Queria sinceramente ter o poder extraordinário de ser livre para pensar o que quisesse na bênção da ignorância. Desculpe por não poder pensar. É que as hidroxilas estão pulando no meu pobre e pequeno cerebrozinho. O vício na palavra desvirtua as pessoas de bem. E é mesmo por isso que eu imito Baudelaire e escrevo meu paraíso artificial mais lindo, que é a sobriedade da opinião do mundo adormecido e entorpecido e insosso. Se ao menos as populações esquecessem os tempos e os futuros e os presentes e os passados e suas dúvidas e medos e receios e poemas velhos e casos amorosos o mundo poderia talvez às vezes ser melhor. Não quero querer mais nada, na verdade.
O problema é que eu não consigo, o cheiro de jasmim das putas de nova orleans é mais forte que a gravidade do buraco negro que compôs o melhor blues.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2007
O confiteor do rejeitado
Chute pra longe a bengala
sobre a qual o ano se escora
e caminhe pelas sendas
da minha voz.
Esqueça
o famigerado tempo
e engula
o purificado coração.
Suas juras de amor e medo
são um segredo
do qual desconheço
a razão.
Busque no céu a verdade
na noite de lua nova
e não perceba que ela
não é mais que a fútil ausência.
O ponteiro é maquinista
da locomotiva louca
que o seu sentir emana
sob o silêncio
da quase aurora.
Mas eu conheço um atalho.
Vamos a pé lentamente
como dois eremitas cansados...
Meu amor grahambelliano,
confesso que sua presença
é uma grande madrugada.
sobre a qual o ano se escora
e caminhe pelas sendas
da minha voz.
Esqueça
o famigerado tempo
e engula
o purificado coração.
Suas juras de amor e medo
são um segredo
do qual desconheço
a razão.
Busque no céu a verdade
na noite de lua nova
e não perceba que ela
não é mais que a fútil ausência.
O ponteiro é maquinista
da locomotiva louca
que o seu sentir emana
sob o silêncio
da quase aurora.
Mas eu conheço um atalho.
Vamos a pé lentamente
como dois eremitas cansados...
Meu amor grahambelliano,
confesso que sua presença
é uma grande madrugada.
sábado, 22 de dezembro de 2007
Sonolento ou melancólico
É o início de um sábado feio
e a vontade de escrever um poema
veio
mas
apesar de tudo
eu creio
que o maior poema desse sábado
é o colchão com o cobertor
e eu
no meio.
e a vontade de escrever um poema
veio
mas
apesar de tudo
eu creio
que o maior poema desse sábado
é o colchão com o cobertor
e eu
no meio.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
Poema finito
Não sei falar não-sei-quê
aqui minha barba coça
a manhã hoje nasceu azul
mas amanhã talvez nasça cinza.
O carbono me deu minha vida
mas depois não vou saber mais
até o saber fica preto
se preto for cor de paciência.
Ciência é igual a penitência
penitência é igual a ritual
ritual é só cotidiano
e ser humano é ser animal.
Seremos nós coacervados?
Poeira transcendental?
Eu sou retrogosto da aurora
você, assassina do tempo
do tempo nas praias do sul.
Atrás das lentes dos óculos,
caminho olhando pra tudo
caminho com cara tranqüila
e tiro os óculos pra não ver.
O avião tem muitos olhares
e olha meu quarto de noite
porque dentro da minha janela
minha cama é infinita
mas avião é já urubu
e passageiro é quase carniça.
Tudo está em minha volta
e eu estou aqui no meio.
Os fins justificam os meios.
Mas o que é que justifica os fins?
aqui minha barba coça
a manhã hoje nasceu azul
mas amanhã talvez nasça cinza.
O carbono me deu minha vida
mas depois não vou saber mais
até o saber fica preto
se preto for cor de paciência.
Ciência é igual a penitência
penitência é igual a ritual
ritual é só cotidiano
e ser humano é ser animal.
Seremos nós coacervados?
Poeira transcendental?
Eu sou retrogosto da aurora
você, assassina do tempo
do tempo nas praias do sul.
Atrás das lentes dos óculos,
caminho olhando pra tudo
caminho com cara tranqüila
e tiro os óculos pra não ver.
O avião tem muitos olhares
e olha meu quarto de noite
porque dentro da minha janela
minha cama é infinita
mas avião é já urubu
e passageiro é quase carniça.
Tudo está em minha volta
e eu estou aqui no meio.
Os fins justificam os meios.
Mas o que é que justifica os fins?
sábado, 15 de dezembro de 2007
Absoluta
Não me importa
essa brancura na sua cara
que me olha com a falsidade de olhos doces
que dizem que um dia me amaram
com a fragilidade de um torrão de açúcar
sob a chuva imaculada da madrugada.
Não reconheço
a transparência das suas imagens
nem reconheço
a virtude da sua essência
dissimulada.
Não acredito em nada
que venha da cor dos seus cabelos.
Não reconheço a futilidade da sua alma
que me olha
e me vê com olhos
de ressaca.
Não quero saber da sua presença.
Quero que você se torne verdade.
Sei que não vejo em você a verdade
mas a verdade mora dentro de você.
Minha relatividade
caiu de uma altura astronômica
e fez um buraco no chão
onde foram enterradas minhas opiniões idiotas
sobre coisas que o mundo
nunca me ensinou.
Não quero aprender você.
Você não é uma verdade.
Quero que caia sua máscara
de opiniões fúteis
e inúteis
para que eu aprenda esse amor
como verdade absoluta.
essa brancura na sua cara
que me olha com a falsidade de olhos doces
que dizem que um dia me amaram
com a fragilidade de um torrão de açúcar
sob a chuva imaculada da madrugada.
Não reconheço
a transparência das suas imagens
nem reconheço
a virtude da sua essência
dissimulada.
Não acredito em nada
que venha da cor dos seus cabelos.
Não reconheço a futilidade da sua alma
que me olha
e me vê com olhos
de ressaca.
Não quero saber da sua presença.
Quero que você se torne verdade.
Sei que não vejo em você a verdade
mas a verdade mora dentro de você.
Minha relatividade
caiu de uma altura astronômica
e fez um buraco no chão
onde foram enterradas minhas opiniões idiotas
sobre coisas que o mundo
nunca me ensinou.
Não quero aprender você.
Você não é uma verdade.
Quero que caia sua máscara
de opiniões fúteis
e inúteis
para que eu aprenda esse amor
como verdade absoluta.
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
Pós-lunático
Não se foque na recaída
pois minha vida
não diz mais nenhum respeito a você.
Certos comportamentos errados
não merecem respeito.
Carrego no peito um coração
com veias, artérias e afins.
(Os fins me ensinam um jeito
de achar a realidade palpável.)
Um novo início é o marco
da minha nova fuga para o leste
não me teste, sou bomba
e posso explodir a qualquer momento
na sua linda cara
de pau.
O satélite natural da Terra
não me comove nem com dez litros de conhaque.
pois minha vida
não diz mais nenhum respeito a você.
Certos comportamentos errados
não merecem respeito.
Carrego no peito um coração
com veias, artérias e afins.
(Os fins me ensinam um jeito
de achar a realidade palpável.)
Um novo início é o marco
da minha nova fuga para o leste
não me teste, sou bomba
e posso explodir a qualquer momento
na sua linda cara
de pau.
O satélite natural da Terra
não me comove nem com dez litros de conhaque.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
Carta
A necessidade de escrevê-la venceu o cansaço e a vontade inadiável de mergulhar no mundo distorcido dos sonhos e me trouxe até aqui. Não sei o que dizer, nunca sei o que dizer quando alguém chora e eu me vejo ali, inútil, inábil na tarefa instintiva de trazer de volta açúcar onde se fez café, de trazer olhar onde se fez remorso, mera ternura onde se fez angústia. Não importa o que passou porque o mundo é presente e somos muito jovens ainda. Temos, mesmo assim, o coração surrado de dois apaixonados incompreendidos. Não apaixonados pela concepção de estar apaixonados no momento um pelo outro como se o céu fosse mais azul e as borboletas cantassem uma canção em tons maiores, menores, ou jobins. Não apaixonados pelo calafrio, pela vontade impossível, pelo beijo inconcluso graças ao despertador insensível. Não estamos apaixonados: o fato, a convicção. Somos dois apaixonados pelo sempre e pelo muito e amiúde, e somos apaixonados pelo nunca e temos como único inimigo mesmo o tempo sem coração. E talvez por isso, talvez apesar disso, talvez por nada eu tenha vontade de conhecer tanto beijo roubado, tanto canto falhado, tanto verso a quatro mãos que no fim resulta de péssimo gosto, e talvez por tudo isso me venha assim tão subitamente a vontade de escrevê-la tão real e palpável. Se ao menos uma noite das que tive pudesse virar real por cinco minutos. Se ao menos um dos meus poemas enfadonhos criasse vida e criasse asas e fosse parar no lugar certo na hora exata e tolhesse de você a lágrima para dar-lhe sorriso, nem precisava ser dos que mostram os dentes. Mas minha presença é talvez tão útil como a de um corrimão de escada. Talvez mesmo eu seja um baita de um corrimão. Não se iluda. Para cada talvez sim do mundo existe também um talvez não. Não dá pra perceber em uma carta, mas nesse exato momento eu parei para suspirar fundo; meus suspiros são combustível para a alma? Depois de tanto buscar, acho que não encontrei o significado de amor, palavra tão dispensável. Não quero, na verdade, saber o certo do amor, amor não é certo, nem errado, porque o amor é verdadeiro, e quanto à verdade, ela não é certa nem é errada. Será que eu me arrependeria de dizê-la mais uma vez que a amo? Provavelmente não. Muito provavelmente não. Não. Talvez não. Talvez sim. Talvez eu preferisse deixar de lado a palavra e mostrar-lhe o meu conceito de amor. Meu conceito balanceadamente altruísta de amor, altruísta pra fora, com um saudável egoísmo trancado do lado de dentro. Amor é momento porque amor é eterno, e a eternidade é uma sucessão de momentos em velocidades assustadoras. Por mais que eu fale, mais tenho a falar. Amor é fogo que arde, se vê, se sente o cheiro, o gosto, que queima, e dói pra caramba. Ter um filho, dizem, também dói. Se não doesse não teria tanto valor no mercado. Esse é o grande problema da atualidade. Eu amo você demais, e sou piegas, sim, e falo isso tudo, sim, e sou poeta, sim, não importa se menor, maior, médio, P, M ou G. Na verdade eu queria ser um poeta bem pequenininho, pra caber no seu dedinho como aliança do amor simples e sem necessidade de correspondência. Sou um grande sofredor porque essa é minha sina de exilado do mundo dos apaixonados pouco complicados. Siga seu rumo e faça o que quiser. Estarei aqui com a liberdade de ser beijado em segredo por um ser que nada carrega de lindo ou encantador, porque exala tudo e deixa tudo quando passa. Sua beleza simples e perfumada é minha. Eu sou o dono da noite, das estrelas e da lua. Sou o mestre de Florbela, de Vinicius, pois eu que sinto e eu que minto e eu que choro em segredo para que o sal saia no pranto e sobre mais espaço pra sua doçura em mim. Sei que corro perigo por ser louco ou por amar. Corro sério perigo. Mas o mundo te quer sorrindo. E eu te quero sorrindo junto de mim. Quando for conveniente, amor, ou quando se fizer necessário. Não posso mentir ao dizer (sim, clichê)
Amo você.
Amo você.
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