sábado, 4 de fevereiro de 2012

A xícara vazia

I

Depois dela, veio o vazio.

Todo castelo que se ergue imponente
Um dia vira ruína.
Toda torre, todo templo
Toda casa e monumento
Um dia atingem a idade da aposentadoria
E simplesmente esperam que o tempo
Cruel e implacável como uma mãe zelosa
Remova cada pedra até triturar os alicerces.

As ideias de grandeza, aquela inteligência
Que estimava genial, se foram
Aquele olhar de esperança para o futuro
Encardiu-se na lama
E aquela doçura que um dia se declarou amarga
Ficou insossa.
E não há nada mais cruel que saber
Que está tudo bem
Que todas as rotas que se trilham
Encontram-se traçadas com destaque no mapa
E que a o mar que se singra em aventura
Ondula calmamente sob o olhar do farol.

E não se esqueça que ele está sozinho
Que o mundo está apinhado de gente boa
Mas ele está sozinho
Que a cidade vê passearem pessoas incríveis
Mas ele está sozinho
E que o horizonte está cheio de paixões
Mas ele está em sua cama grande
Sozinho.
Desesperadamente sozinho.
Calmamente solitário.
Como um monge.

E que lhe resta senão fechar a janela
E as cortinas arrebentadas
Para que não veja o mar?
Há amor no coração, e é doce
Não se estrague esse amor com água salgada.
O mar é um caldeirão de sentimentos
Diluídos como lágrimas em praias.

Permanece calado o jovem solitário
Como se do silêncio dependesse a existência
Como se da ausência completa de som
Surgisse vida
Então ele prende a respiração
E, anseando misericórdia,
Morre de vontade de viver.

Modestamente calado.
Humildemente destruído.
Obedientemente destroçado.
Desfigurado de suas feições de grande promessa
Para o futuro, que já chegou e não é nada daquilo
Que se esperava em 2005:
A profundidade do abismo só se vê 
À medida que se margeia a borda.

E diria que dói, se pudesse
Mas nem a dor, que se revelou como aliada
Presente sempre nos momentos de vida,
Apareceu para oferecer consolo.
As pálpebras do mundo estão caídas
E seu pulso não se sente nos maremotos.

As montanhas, ao que parece, 
pararam de buscar o céu.

II

(Eu não me reconheço mais em nenhum espelho, vidro ou lâmina d'água
Porque eu nem sei mais se ainda existo.

Alguém venha comigo e deixe o medo voltar
Estou preocupado por nem mais sentir receio

Tomando chá comigo mesmo, pergunto

Deus, será que eu morri?)

A dúvida da proximidade

3h
da manhã.

Do alto do décimo-quarto
se veem as luzes da cidade
que revelam o caminho
tão curto
até você
que dorme no décimo quarto
e goza no seu ninho farto
de loiras ilusões

e eu
eu que me recosto torto
nessa fria cadeira de metal
observo do alto a lacuna do mar
que de mim sempre está tão próximo

e seus mergulhos são uma saudade

e sua presença é uma festa estranha

e sua vaidade nunca faz sentido

te esconde de todos e te esconde de mim.

A beleza da distância

Aquele momento breve
Antes de amanhecer
É o momento mais leve
Em que me lembro de você

Aquele momento estanque
Antes de amanhecer
É um momento estranho
Em que eu, perdido, ganho
Mil lembranças de você

Mas esse momento quieto
Antes de amanhecer 
Em que o mundo, boquiaberto
Espera o momento certo
De um aplauso conceder 

É o momento estático
Em que me mato enfático
Querendo uma eterna gana
De apenas querer você.