Sou um velho.
Onde foi parar minha juventude?
Pra que lado seguiram as moças
que me olhavam de esguelha
e se esvaíam?
E o rio que cá passava, onde corre,
se esta terra arrasada
amarga a seca?
Fazem-me falta as respostas de Deus —
atrás de que tempestade
Ele se esconde?
Custo a acreditar que o mar abunda
em todo março por vazio capricho.
E foram tantos barcos que já vi
serem levados pela correnteza:
me entristece o desalinho do saveiro
cujas madeiras hoje agonizantes
um dia estalaram fidalguia.
E quanto em mente já tive,
quando só havia perspectiva
de vir a ser, e tive
que chorar também, confesso,
quando vi que o que via
ao longe
era horizonte
e dele eu jamais me aproximava.
Onde foi parar minha juventude?
Foi nos espelhos que se deixou borrada?
Em quantas xícaras de café,
em quantos pratos,
em quantas camas, em quantos travesseiros,
ficou minha juventude
— em quantos quartos?
Ficaram muitas coisas
pelo caminho:
papéis, amores, serenatas,
garrafas, amigos, um desastre
de automóvel,
um doutorado,
um suicídio
de um membro da família
e três tentativas frustradas,
com mulheres diferentes,
de fazer um filho.
Foi aos poucos vazando no caminho,
como areia,
aquela risada cheia de verdades,
com que eu fazia ecoar
os corações dos mais desavisados.
E eu sinceramente tentei
carregar tudo com minhas mãos,
mas desse tempo
só o que tenho
é a erosão
que sofreu o relevo dos calos
que existiam nessas palmas
agora lânguidas.
E as invenções, os avanços
da ciência, que me cederam
uma sobrevida diria milagrosa
e uma doce felicidade artificial.
Queria tanto
visitar os inventores em suas casas,
um a um,
para um café tanquilo
— os inventores devem ter tanta coisa
para ensinar...
Eu, que nunca inventei nada, fui incapaz
de terminar quatro romances diferentes,
e, confesso pela primeira vez,
não sei rezar o Credo por completo.
Mas o mais triste é descobrir,
assim, de chofre,
que não há mais tempo para nada:
a vida,
por incrível
que possa
parecer,
um dia acaba.
E a juventude,
que um dia foi uma certeza imutável,
se foi sem fazer barulho,
e aquela perspectiva que se tinha,
quando se via ao longe
(e o olhar era sempre altivo)
voltou-se para o passado,
convertendo-se em memórias
com gosto amargo.
Nessas horas reluzem perguntas
esperando
como última esperança
a resposta de Deus:
Em quantos medos foi parar minha juventude?
Quantos agoras?
domingo, 6 de março de 2011
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