quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Ode sonolenta

Menina que vem do mar
Azul, esposa do pacto céu
Azul, mulher do bom vento sul
Azul. Azul azul mulher amar.
Um lábio se crispa na imensidão
Do amar meu, ou seu, sei
Eu sei do vento o segredo triste
Em vão, sua cintura na minha
Mão e o não, implacável olhar
Em riste se veste até os pés
Mulher que traz o tremor
De terra ou de minhas mãos
Coração. De terra me fiz
E sou. E sou e sou e sei
De parte de mim você se fez
E desfez, cantando outra vez
Azul. A cantiga do cantor
Do sul. Uma voz azul.
Um saxofone chora em algum
Lugar na minha cabeça papel
Escreva qualquer coisa ao léu
E leia alto, esposa do longo azul
Tome este poema como anel
Me beije mais uma vez só
E uma vez mais me ensine
A viver ou morrer sem sono
Poema poesia lua e trono
Nua dormia o sono algema
Do poeta esquecia sem ter dó
E abraçava carícia beijo e trova.
Nada satisfazia, era nova! nova!
Lua à luz do dia e cantava
E dava beijos e lampejos de olhar
E luz. Cegava quando chegava
E me abraçava como conduz
Conduzido eu não ficava
Mas seduzido me quedava
E levantava e trabalhava
Não me cansei por te esperar.
Só o silêncio, mais que silêncio
Ensimesmado ciumava a mim.
Então calada você ficava
E no azul só amarelava
E maldizia e se tentava
Não concebia mas praticava
E eu te amando como filhote
Sem querer dote nem quebra-pote
Amando como amam os aleijados
Sonhando como os desamparados
Os renegados os condenados
Desenganados e machucados
Que se juntando todos somados
Cabiam todos como em mim!
E ouvia sim em sonhos loucos
E acreditava como tão poucos
E continuava não questionava
Não prometia eu só cumpria
A minha parte que pertencia
Talvez ao vento, à profecia
À luz do dia, à minha tia
Dona Maria ou ao vigia
Minha não era sua tarefa
Eu não seguia meandro torto
Nem perseguia passado morto
Eu só seguia o mundo grande
Andando sobre esteira rolante
Das que me param mesmo lugar.
E se um Moraes não tivesse dito
A mim morais que hoje repito
Seria eu seu jogo de bonecas
Eu seu papel e sua caneta
Ou talvez nada talvez mais nada
Um sonho bom ou talvez um oi
Ou talvez eu fosse um filho exaltado
Ou talvez fosse um livro largado
Ou talvez do léxico fosse o nada
E do disléxico a caneta usada
E se memórias me passam nunca
Lembro da vez que beijou minha nuca
E da outra vez que tive amnésia
E fui idiota como um bufão
Duma corte média dum século velho
Me corte inteiro faça fatias
Pra ir digerindo por todo o dia
Mulher do mar, menina azul
Me dê acesso ao seu dentro duro
Um girassol no hemisfério sul
Uma orquídea rosa, margarida antúrio
Chocolate do dia morto com saturno
Do meu olhar pesado do meu ler pesado
Ah menina que vem do mar
No bar se banhe e no mar só beba
Com minha presença para que se atreva
Pode ser que eu veja seu corpo cerveja
Frio da Escandinávia carro de Veneza
E sem que me alongue dispo-me sozinho
Da palavra sua que por si só é nua
Mas preciso tanto confessar à lua
Outros tantos ditos simples
Três palavras ou mesmo duas.

Segure minha mão e siga

Sem palavras eu digo e espero
E calo.

Seus dedos solitários
E meus dedos solitários
Se encaixam
E não nego.

Seus olhos castanho-
escuros
obscuros
me enxergam.
Seremos luz
se quisermos ver
Seremos gosto
se quiser beijar.

Sejamos palavras soltas e uma longa madrugada.

Hai-cai urbano para um amor sem sono

O celular toca
Eu já não sei no que creio
Sua voz me convoca.

Poema ensimesmado

Esta noite, amor, mergulhei em memórias.
O caderno de escrever me lembrou
nossas velhas aulas perdidas.
Olha, em meus olhos,
a tímida lembrança de um beijo sem fim.
Mas as recordações, todas elas,
eu guardo uma caixa
pequenina assim.
A chave, só você tem
e guarda só pra você
mas se esquece de mim...

Poeminha mal-sucedido

Sozinho no escuro
procuro
seu raro encantamento.

Um grilo velho
— um grilo! —
me canta ausências nesse momento.

domingo, 20 de janeiro de 2008

O vendedor de rosas vermelhas

O menino preto e franzino me perguntou
se eu queria comprar uma rosa vermelha.
Murmurei um não como se seu preto
fosse completamente invisível.

Quando fechei os olhos ontem à noite
passei a ver tudo muito preto
e me lembrei do menino preto e franzino.
Seu olhar como vitrine de loja
suas roupas como túnica da sorte
seus pés como raízes
e suas mãos que tocavam espinhos.

Mas que ingênua elegância
não tinha o menino!
Como mil pajens alados
flutuava pelo mundo
como príncipe encantado
cavalgava em mar profundo
como bom publicitário
divulgava seu produto
que parecia colhido
de algum jardim noturno
trancado na primavera.

Ô menino preto e franzino,
quando passar por aí pela 210 sul
a menina mais bonita vinda lá de Aracaju
ofereça-lhe uma rosa mas não lhe cobre um centavo
diga que lhe mandou o poeta,
que, assim como você,
não sei se é nobre ou escravo.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Nova ode ao seu amor teimoso

Oi, quero escrever um poema. Um poema que fale da minha insignificância perante o mundo. E de amor.

Sou o mundo
e não me importo
se sou raimundo
ou solução
a minha mão
lancou um soluço
raspe seu buço
não pense na festa de amanhã.
Ela não vai estar lá.
Não pra você.

Qual o pH do amor? Tem de 500 mL? Por que a lua não se deita no meu colo?

está rodando está rodando está rodando está caindo caiiindo caiu looping um gosto sustenido me passou pela boca você não tem idéia de como você é dissonante não sou leminski mas sou bemol sou mongol sou gelol bom bril sem nenhuma utilidade sou maldade está rodando meu coração está tum tum tum tum tum tum tum tum tum tum tum tum tum vai explodir eu acho com certeza parêntese que poema porcaria parêntese há um fluxo sangüíneo inesperado em certos meandros da minha anatomia que não está em livros meu coração minha nossa chuva caindo agora é novela eu acho que mil novecentos e vinte e dois é o início da história o homem inventou a escrita aí mas ainda não consegue descrever isso que eu estou passando uau que intenso e efusivo uau que coisa está rodando está rodando

Quando terminei de beijá-la, tudo voltou à norma culta.

Eu te amo, amada minha,
Não se prenda por lugares-comuns.
Aqui onde estou, é longe
E não há brisa, mas ainda assim eu te amo
E não te esquecerei um minuto sequer.
Tu és de uma beleza de que não se encontra par nos recantos mais lindos do universo.
Tua fronde é bonita como a das mais altivas árvores.
Despe-te de tuas folhas e mostra inteiro teu tronco a mim.

árvore
não
tem
coração

mas chora.

Nosso amor é menos que uma onda eletromagnética entre uma multidão de euteamos espalhados pelo ar ondulando como uma sereia para chegar como cupido e flechar o outro pelo celular.

Mas, amor, a verdade mesmo é que eu te amo demais. Desculpe por repetir isso à exaustão, mas é assim... Meu pranto é um transbordar de ternura.

toque minha mão
e, por favor,
não diga nada.
Está tudo planejado.
Primeiro, beijarei teu rosto
depois, tocarei teus lábios
com os meus.
depois, te darei todas as estrelas
e a lua
numa caixa com um laço.
Quando chegar 12 de junho
(ou 14 de fevereiro,
se preferir)
virarei uma criança.
Meu olhar está em chamas
meus pés pisam em lama
minhas mãos estão paradas
ou agitam o ar.
Sei do amor o que ele me contou
e ele não disse nada
amor é cego
e surdo-mudo também.

to-do stanza
escrever uma carta de amor
comprar uma rosa vermelha
desenhar coisas que ela vá gostar
olhar nos olhos dela e dizer clichê sincero

..............................

Amor, soe um único acorde otimista
para eu compor a música inteira.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Poeminha mau humor

Carrego em mim um instinto criminoso
Marcá-la a ferro quente incandescente
Para matar de vez o amor doente
Que mente sempre quando diz que sente
Possa ser que invente uma paixão ardente
Mas me engana crente que sou inocente
Saia da minha frente não sou complacente
Com os seus sorrisos como entorpecentes
Carrego em mim um instinto criminoso
Que me mata fácil quando há poesia

Fale do sonho
Fale da vida
Fale do amor
Fale da roupa
Fale do sexo
Fale da calma
Fale da alma
Fale do céu
Fale do mar
Fale da lua
Fale da festa
Fale do álcool
Fale do fim
Fale de tudo
Cale essa boca
Só um minuto
Tô muito puto
Alea jacta est

Latindo para um vagabundo
Na calçada roubando
A fruta do pé
Que amadurecia
E me endurecia
Sem jamais me tocar
Acordei suado
Numa noite crua
Com cheiro de morena nua
Caju doce e nicotina podre
E decidi
Alea jacta est

La paix, amis, ne me laisse
guère, ne me laisse jamais
parce que j'ai la protection
du silence.
Si vous voulez me tuer,
faites-le avec quelque mot
qui n'existe pas
dans la bouche de la nature.
Essayez.

De repente, ela apareceu.
Carregava um brilho constante
Para dar a esmo.
Sobre o seio, levava um traje
Que para os olhos daquela noite
Eram um grande absurdo.
Seu sorriso milimétrico
Apontava
Preciso
Noutra direção
Preciso
Fechar os olhos.

Now the whole world spins quickly
Before my eyes, you're saying hi's
To the news that comes
You're spinning quickly
Before my eyes, you're yelling byes
To my plethora of drunken lust
I must kill you crying.

Estávamos na praia
Na praia muito bem
Falávamos besteiras
Beijávamos pequeno
Na praia muito bem
Até que de repente
Não mais que de repente
Olhei pra sua cara
Não olhava pra mim!
Alea jacta est

...
Esqueça
Tudo fica muito fácil na poesia
Nada fica muito vivo na poesia
Quid quid latine dictum sit
Aldum videtur.
Ciao.

Alea jacta est?