sábado, 26 de dezembro de 2009

Ainda há fios
do seu cabelo
se escondendo por detrás dos móveis
e cheiros
do seu corpo
por entre as colchas da cama
sua caligrafia
no bloco de papel
em cima da escrivaninha desordenada
e seu olhar seguramente ensaiado
eternamente a fitar
a distância do outro lado do meu espelho.

Surgimos devagar, como um desenho
que de um ponto faz um traço
e de um traço faz uma forma
e de uma forma dois rostos
que se tocam de leve, e se enlaçam
e se faz a luz e se fazem as sombras
e os olhares se constróem sobre a irrealidade
do papel, e se desmancham em tinta
e se borra a tinta, e a luz se mistura às sombras
e os rostos se refazem, e as formas se confundem
e os traços enlouquecem e os pontos,
de tantos que são, transfiguram-se em constelação
de desventuras.

E ela, fluida que era, entrou
por todas as frestas, preencheu
todos os espaços, encharcou
toda superfície, como torrente
de sensações arrebatadoras
e sentimentos que me acorrentavam.
Mas ela, fluida que era,
como todo fluido que se preze,
secou com a mesma naturalidade
que exalou quando veio.

Se entregou a amores desvalidos,
encontrou sua saída, resolveu trair meu amor
com excitação pelo futuro e com saudade do passado.
Mas eu, taciturno que sou, esperei em silêncio
e lágrimas — secretas — por que ela viesse.
E demorou séculos, eras, milênios
até que ela viesse e se demorasse
entre meus braços pagãos e mentirosos
que lhe prometiam o mundo
mas eram só deserto.

Mas eu a amei.
Fechei a porta da varanda
de madrugada
e chamei seu número
no prédio ao lado
e ela, da janela
via junto comigo
a árvore de natal se apagar
e o sol acender a rotina.

Já nos amamos como bichos
em lugares inesperados
já choramos juntos
por verdades inventadas
já nos tocamos um ao outro
mais do que outros gostavam
e esquecemos tudo isso
porque o mundo gira, a lua muda
o sol se põe e a madrugada
come nossa vontade de viver.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Poema do mais triste maio

Em algum dia nebuloso
de maio
mês das noivas
e das esperanças

ela pensou em mim

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O Impronunciável (II)

Não passavam nuvens e a lua não estava cheia
os carros já dormiam e o rio estava seco
nem mesmo o vento acariciava minha pele exposta.
Mas meu erro foi estar despido
no meio do labirinto, onde não sei
de que lado, atrás de que parede
vão me assassinar brutalmente.
O olhar que eu queria ter acalentando minha pele
se multiplicou em multidão infame.
Suas mãos carregam feixes de feno
e toras de madeira, e me guiam
firmes e determinadas
em direção ao fogaréu dos incondenáveis.


Meu erro foi ter a pele exposta
o sol é brasa, a terra é navalha
a brisa que suaviza e afaga é a mesma 
que me joga areia nos olhos,
me impedindo de conhecer o caminho.
Meu erro foi estar nu
sem pudores, sem saber que minhas vergonhas
seriam esquadrinhadas por aqueles a quem a vida
preferiu dar uma mãozinha.
Minhas roupas de couraça, que tanto conheço
foram abandonadas onde todos os homens são leais
onde todas as fontes são puras
onde todas as virgens carregam hímen
e todos os amores são eternos.
Toda parvoíce minha é digna de retaliação.


Mas compreendam que eu estava só
e compreendam que eu estava nu
e entendam que minhas confianças foram dadas
a quem jamais será capaz de compreender.
Entendam que meu corpo moribundo
boia na superfície de um rio de boas intenções
todas podres e convertidas em fel.
Minha mente sacrossanta já esqueceu há muito
o gosto da hóstia abençoada.
Caio ao chão, sem fôlego para gritar
preparado para sentir sobre mim
o peso da certeza que me esmaga
e a qual todos pensam nem mesmo existir.
Compreendam que a calada da noite 
é o silêncio de morte de um Criador que,
sabendo da minha vontade não Criada,
prefere simplesmente não existir.


Enquanto durmo, meu nome
comprido e feio, atravessa
as bocas de quem jamais falou-me
flechando com langor a quem à dor está acostumado.
Meu nome é doce e agradável às línguas ofídicas
e é fluido e se esvai no ar como perfume
e invisível como o gás que me mata
por eu ser eu, concentrado em um campo 
em que os algozes que decaem comigo
chamam-se a si de meus amigos fraternais.
O suplício a mim soa prazeroso,
tenazes em brasa me parecem agradáveis
lâminas de aço, correntes de chumbo
rodas de madeira e pregos afiados
lanças pontiagudas, projéteis inflamados
todos parecem me revelar um prazer 
de louco e um apreço ensandecido
pela dor. Sofro de cabeça erguida
e sei ser meu mundo fechado o único seguro
mas saio à rua, descolo do céu o adesivo da lua
e caminho silencioso e resignado em direção
ao mar morno que me espera faminto com a boca aberta.


Mas minha grandeza indulgente merece amor.
Meus olhos semicerrados merecem um olhar bonito,
minhas mãos merecem uma mão suave, meus braços
merecem um corpo pequeno, meus lábios merecem
sujar-se de batom, ou não, não importa
quero algo que expulse o vácuo que há em meu peito
pois sinto dor, sinto ardor, não sinto nada
não sinto a nostalgia da primeira namorada
mas sinto saudades das horas que passei ao telefone
das lágrimas que vi caírem junto à chuva
e do suor que derramei em pequenos cômodos 
trancados a chave. Não quero relógio
vamos voltar, não quero ver os sóis se pondo
e se erguendo, e as luas mudando e voltando
a ser o que eram, pois meu sentir se revelou
averso ao tempo. Tenho medo de fracassar,
morro de medo de não amar, morro de medo,
morro de medo, de medo, morro.


Calem a boca todos os homens e mulheres do mundo,
calem a boca aqueles que usam meu nome
em vão, calem a boca, não quero ouvir lamúrias
nem celebrações, vivas ou ais, calem a boca
quero ouvir apenas o som da minha respiração.
Não me misturem a essa espúria sordidez
não me pronunciem pelos becos putrefatos
esqueçam quem sou e vão embora abandonados
e me deixem nu e só, pois a noite me chama 
para olhar para a grandiosidade da vida
de dentro do seu útero gigantesco.

domingo, 29 de novembro de 2009

Poema de desassossego

Por vezes, meu olhar
encontra descuidado
cantos da vida para os quais
prefiro deixar de olhar.
Meu rosto no espelho,
que sempre parece bom,
minimamente, suficiente,
por vezes revela fendas
revela as trilhadas sendas
por que passou quem esteve comigo.
Meus olhos têm um ar cansado
e estão sempre na iminência
de transbordar. Mas sei
que serei capaz de me esconder
antes que me encontrem,
que serei capaz de construir
minha máscara pesada
atrás da qual me ocultarei,
nas manchas, nas rugas,
na barba por fazer, nas roupas
descosturadas. As alvoradas
não fazem sentido. O cantar
dos pássaros é uma agonia
do ontem, e uma angústia
do amanhã. Então deixe-me
chorar onde eu estiver,
deixe-me, se for o que quiser,
deixe-me, escolha o que te faz
feliz. Deitar-me-ei sob o luar
que já não me acalenta
ouvindo o mar, que me atormenta
e o vento que vem de lá
que me fustiga, e dormirei
quando a última lágrima
esvaziar toda a vida que houver
em mim. Esquecerei os livros
lidos pela metade, os poemas
mal escritos na gaveta,
as verdades, que escondo em fortaleza
indevassável da qual você tem
a chave. Olhe em meus olhos
uma última vez, se puder
que entenderei o que não fui capaz
por todo esse curto tempo.
Um momento sozinho
quem sabe, será capaz
de me curar.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Soneto sem rima nas Arcadas

E no passado enorme em que me deito
acho um conforto enorme na grandeza.
Aqui sou forasteiro, sou distante
mas cá pouso a mente sem horizonte.

E entre os grandes nomes que as paredes
consignam em pilares (do País)
tento rasgar o meu na pedra altiva
mas minha força é pouca e não consigo.

Nos arcos que são ombros da cidade
(locomotiva estranha da nação)
e, atlânticos, sustentam o estado
que encima o pelotão dos vinte-e-seis

calado, olho as mentes que aqui passam
soturno, vou-me embora num suspiro.


Arcadas, 21-X-9

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Poeminha imediatista

O futuro se prenuncia
em presságios

enquanto eu, embasbacado,
sujo as calças de medo.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Hai-cai matutino para um amor interino

Esse mesmo vento
Eu esqueço e agradeço
E triste lamento.

Blasfêmia

Em certas noites
ou numa noite certa
(ainda não sei)
nalgum momento perto
do alvorecer
(num momento congelado
embora
na fita do meu tempo)
na maturidade
da madrugada
encontro-te.

E então desaparece
qualquer lucidez
as memórias do passado
não encontram paralelo.
Encontro-te gigante
amante, ofegante, simples
como roda de ciranda.
E no momento cristalino
em que te encontro
(mas nada virginal)
não me adianta tentar
falar, perco a eloquência
e minhas frases
perdem o rumo
e as palavras
perdem o prumo
e, mal e mal erguidas
ruem, num ruído
cansado e ensurdecedor.

E quantas blasfêmias
grito para ti, tentando
como um suicida em delírio
extirpar meus pulmões
(não sei se ouves)
e quantas heresias
cometo por ti
(cometo contigo)
crendo que o mundo
é um ponto em meio ao que há
(mas nós dois somos imensos).

E a lua, nesse momento
parado perto do dia
se mata, atirando-se
contra o horizonte duro
(se mata de ciúmes).
E o céu se inunda
dessa cor rara que brilha
pelas manhãs, quando por amar demais
perdemos a hora e não sabemos
se é dia
ou se é noite.

E não perguntes
onde estava Deus
pois Seus olhos
estão ocupados
tentando não olhar
para nós. Mas eu,
num átimo de insanidade
ponho-me de joelhos
e, como um santo
chorando convulsamente
rezo por ti.

Nessa noite certa
ou nessas certas noites
(adoraria sabê-lo)
esmaece tudo a nossa volta.
O momento se congela
o mundo para a nos olhar
enquanto eu, extasiado
não me importo em afogar-me à morte
no lago claro e fundo
dos teus olhos.

domingo, 4 de outubro de 2009

Esboço de ensaio sobre o Sol

E é quando o sol nasce

enorme sobre o horizonte
altivo pelas janelas
por entre as frestas das portas
fechadas de apartamentos
mudando a cor das piscinas
e acordando as senhoras
cantando pelos poleiros
gemendo pelas ruelas
cheirando perto dos bules

esquenta-me a pele
e repele os males
longe dos olhares
que ora me observam
sodomiza noites
rompe madrugadas
lambe pela aurora
coisas indizíveis
sente a poucas horas
cheiros impensáveis

e as tais das linhas tênues
há muito que já se foram
pois não há nenhum limite
entre o dia e a madrugada
a noite que vira dia
o faz da noite pro dia
mas antes de a noite ser dia
a aurora vem morosa
mas quando vem, vem inteira
e acaba com a madrugada.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A flor da pele

— Você nunca me olhou assim.
— Assim como?
— Assim, com esses olhos secos e sem vontade...
— Talvez seja porque eu nunca tenha te visto desse jeito.
— De que jeito, agora?
— Sentada nessa cadeira velha, sem postura, sem sua pose... Esses ombros arqueados, essa maquiagem borrada. Eu não sei o que anda acontecendo com você.
— Você quer que eu desenhe num pedaço de papel? Você precisa de manual pra ler minha maquiagem borrada, meus ombros — como você disse? — arqueados? Precisa? Será que você é idiota a esse ponto?
— Escuta aqui, garota.
— Solta o meu braço.
— Não adianta. Você não pode me humilhar na frente de toda a cidade, de todo o país!, porque eu sou grande, e eu sou importante, e meus amigos me querem bem, diferente dos seus — será que você tem algum amigo? Pare de fazer cena, pare de chorar que eu sei bem a merda de atriz que você é. Escuta aqui, você que me quis. Você tinha lá seus romances e eu tinha os meus, mas quando eu te quis você fingiu que eu não existia.
— Eu não te amava. Sua presença me intimidava, você é um grande sedutor. Mas eu não te amava. E então você me viu pela primeira vez, eu que já te observava de longe... há muito tempo. E quando você pôs seus olhos em mim você colocou na cabeça que eu tinha que ser sua, que eu tinha que terminar na sua cama ouvindo aquelas coisas bonitas que você gosta de falar... Que você decorou há tantos anos e repete sem vergonha no ouvido de todas que se prestam a deitar naquela sua cama imunda. Mas eu decidi que eu ia me conter e não ia ceder aos seus ímpetos sedutores.
— E foi o que fez.
— Foi o que eu fiz. Segui te ignorando, mas no fundo te queria, fui amando outros homens na sua frente pra te afetar, segui vivendo histórias de vida, pondo fotos em meus álbuns, criando memórias, enquanto você seguia longe mas não tirava os olhos de mim.
— Você conseguiu que eu chafurdasse na lama atrás de você. Sim, porque você tava na lama. Todas aquelas babaquices com seus namorados e seus amantes, e todo aquele delírio de amores eternos e felicidade pra sempre, tudo mentira, —
— Tudo mentira. —
— só pra me deixar sofrendo aos poucos, sangrando devagar, você sempre foi uma vagabunda sádica que me destroçou e me tirou do meu trono de ouro, em vez de ir lá e polir o ouro com uma flanelinha encardida como todas as outras fizeram.
— Eu sempre gostei de ser diferente. Pintei o cabelo de loiro quando todas as minhas amigas queriam virar morenas, namorei um poeta —
— Eu não quero saber das suas memoriazinhas fúteis. Você se acha muito inteligente, muito distinta, muito acima da média. Que tal o novo livro mais vendido da revista? Bom? Pensei em comprar pra dar pra Dona Juraci, a empregada da mamãe.
— Você... você não vale o chão que pisa. Canalha.
— Valho o chão que piso e valho o ar que você respira, e valho tudo que tá em volta de você, sua idiota, fui eu quem te deu essa cadeirinha, fui eu quem te deu essa caminha, fui em quem te deu esse apartamentozinho, o carrinho da garagem, fui eu, fui eu que te dei, fui eu! fui eu! Você nunca teve nada, você nunca conseguiu nada, não pôde atingir seus objetivos de vida, seus ideais de menina rebelde, esperta, distinta, um primor.
— Você é um coração de pedra. Nem a doença da minha mãe você respeitou, nem a morte do meu pai, nem o meu irmão que eu tive que sustentar, nem nada você respeita, nada você entende, nada você aceita, seu cretino. Mas eu te dei o troco que você merecia.
— Que troco? Me esnobar por dois anos? Pra quê? Tava poupando esse seu sexozinho de mim? Tava fugindo? Troco de quê? Pra quê? Eu já te coloquei nua na minha cama implorando pra eu te arrombar. Que troco é esse?
— O troco foi mostrar a todo mundo o grande babaca que você é. Um idiota. Um cretino, cafajeste, canalha. Não vou dizer nada da sua mãe, uma querida, ela, coitada, não merece o filho que botou no mundo. Aliás, eu não falaria nada do seu pai se soubesse quem ele é, você sabe? Quem é mesmo seu pai, amor? Ah, não brinca! Você tá chorando? Você, vertendo uma lágrima?
— Saia da minha frente.
— Filho-da-puta!
— Minha mãe não é uma puta, entendeu? Nunca foi! Nunca!
— Ah, é? Então você é filho de chocadeira?
— Lave sua boca pra falar da minha mãe, sua ordinária!
— Lavo, lavo, lavo com os fluidos corporais do seu melhor amigo, lavo com prazer. — Ai!
— Você mereceu. 
— Você está louco, seu idiota! Saia da minha casa! Agora! Saia da porra da minha casa!
Minha casa, você quer dizer.
— Você... você me bateu... Você me machucou...
— Pare de chorar.
— E depois... vem me perguntar... o que acontece comigo quando minha maquiagem borra, e meus ombros ficam arqueados e eu entristeço... por seus olhos sem vontade. Eu acabei de apanhar do homem que mais amei na vida. Mas que se foda, é essa a sina que eu mereço.
— Pare de chorar, mulher.
— Não diga mais nada. Eu não quero mais ouvir sua voz.
— Venha cá. Desculpa.
— Me largue.
— Foi o calor do momento, por favor, me escute...
— Saia de perto de mim.
— Não, não. Venha cá.
— Saia de perto de mim!
— Eu falo o que você quiser ouvir!
— Agora é tarde. Eu não quero mais ouvir nada. Eu não acredito mais em você. Não confio mais em você.
— Espere. O que você tá fazendo?
— Arrumando as malas. O apartamento não é seu? Não é seu tudo que tem aqui? Não se preocupe que eu não vou levar os vestidos que você tinha me dado.
— Não, não, fique. Pra onde você vai?
— Pra um hotel, sei lá. Saia da frente.
— Não precisa. Fique.
— Eu não quero ficar. Eu não quero mais saber de nada que venha de você, nada, entendeu?
— Não, não... Não, por favor, não... Me perdoe! Me perdoe...
— Não adianta mais chorar agora.
— Eu... eu te amo, eu te amo... eu te amo, amo, amo, eu te amo...
— Quem não ama mais sou eu.
— Me perdoe, pelo amor de Deus...!
— Você renegou Deus há muito tempo. Meu rosto ainda está doendo, eu tô sentindo minha pele arder, eu sinto cada dedo seu na minha cara, cada pedaço da sua pele, cada linha que a quiromante da Espanha leu. Você não faz ideia de como isso dói. Não porque um tapa machuca, mas porque um tapa fere o coração profundamente. Quem bate esquece que bateu. Quem apanhou, não esquece jamais.
— Você me ama, eu sei que ama... Fique aqui, não vá embora... não vá...
— Escute aqui. Eu vou falar pra doer mais em você. Eu... te... amo. Eu te amo, e sabe o que você fez? Você esbofeteou a minha cara como se eu fosse uma vagabunda que quer te roubar os cartões no meio da noite. Eu te amo, e você me deu um tapa na alma.
— Desculpe... Por favor, desculpe... Eu imploro...
— E olhem, olhe todo mundo! O velho bardo, comendo, em vez de rosas, cardo! O homem importante, cheio de amigos, ajoelhado no chão de uma zinha leitora dos mais vendidos! Você devia ter vergonha. Pronto, acabei minha mala. Isso é tudo que eu tenho na vida.
— Você tem a mim, amor...
— Você só tem a si mesmo. E olhe lá.
— Não, não me deixe sozinho. Não, você não vai entrar nesse elevador. Não vai sair, não vai!
— Me deixe passar. Os vizinhos vão acordar. Saia da frente, eu vou embora, fique com sua chave.
— Não... venha cá...
— Não, saia... Saia... Tire a mão daí...
— Não vá embora...
— Tire a mão... ah... —
— Eu não vou embora. Meus olhos estão molhados e cheios de vontade —
— ah... me deixe...
— e eu não vou te deixar nunca mais.

No outro dia, ao acordar, ela chorou ao ver o que viu.

domingo, 20 de setembro de 2009

Poema de desilusão

Vontade
de gritar
para o mundo
me salvar
estou preso
estou louco
minha cara
anda molhada
minhas mãos
andam tremendo
o pensamento
anda perdido
as vontades,
esquecidas
as verdades
não importam
já não sei
mais ser por ser
estou só
mas tenho pares
num deserto
só de oásis
tenho o pó
querendo a pedra
tenho o sol
querendo a lua
saio à rua
procurando
minha casa
um endereço
me perdi
não sei que rua
ou avenida
não sei se casa,
apartamento,
baixo de ponte,
iate de luxo
não sei mais nada
não estou em casa
por onde ia
raiar o dia
por que caminho
eu fugiria
não tenho rumo
sem rota sigo
sem falar digo
calado vou
sempre comigo
amigo meu
já foi inimigo
dando uma rosa
já fui traído
quando afagava
fui agredido
fui iludido
com meia-verdade
a pouca idade
me expôs ao sim
de madrugada
choro um bocado
sozinho durmo
sem ninguém mais
não há memória
não quero amor
não quero paz
não quero risos
quero o que quero
quero o que traga
quero o que quis
sei que não pude
mas me proíbam
de querer sim
mas me impeçam
de prometer
mas me supliquem
se eu fugir
não gosto do ácido
que a vida prega
quero dormir
sonhar um pouquinho
acordar às nove
tomar um suquinho
não ter o que sonhar
por tudo ter fácil
mas ah se fosse fácil
amigo, se fosse fácil
amigo se essa coisa fosse fácil
eu jamais passaria um minuto
sem ser feliz.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Aos jovens de Buenos Aires

Talvez seja pelo frio cortante

que entra por entre os poros de minhas roupas
ou talvez seja pela visão saudosa
desse porto ancorado cuidadosamente
sobre a pele desse mar doce.
Ou talvez seja ainda pela idade desses prédios
ou pela história dessas vias
ou pela alma dos monumentos.

Talvez seja pela resignação daqueles homens
que dormem ao relento junto ao frio
dessas memórias.
Ou talvez seja por causa dos adolescentes lindos
que saem pela cidade como se
a vida fosse hoje, e não existisse mentira no efêmero.

Talvez seja pela vida que eu esteja exasperado
sob o sol, extático frente a esse horizonte que arrebata
esse vento que fustiga e essa terra que verdeja.
Talvez pela música que escuto que melancolicamente
posso entrever na penumbra do futuro
uma gigantesca irrealidade.
Seriam inverdades meus sorrisos de ontem?
Seriam enredos inventados meus amores que vivi?

E de onde segue a vida, que abunda para os belos jovens?
Meninos e meninas, não como eu, sem deslumbre
apenas com a simplicidade que lhes dá a manhã
que vem depois da outra manhã
que por sua vez vem depois da madrugada.
Sejam abençoados esses jovens que vivem,
esses jovens que querem, esses jovens que não pensam!
Sejam! Esvoacem matreiros pelas folhagens das praças
e pelas vitrines das lojas, e pelas mesas dos cafés!
Suplico-lhes tristemente, ensinem-me a ver
além de meus pensamentos inúteis de dúvida
quanto a tudo, beijem-me pelas esquinas ensolaradas
e me deem a felicidade de esquecer em que ano estamos
e quantos anos faltam para o futuro chegar.

Matem-me sem despedidas, concebam-me desesperados
cometam só mais um pecado e descansem,
comprem uma coca-cola, e um pancho
e um sorvete, e deitem no gramado e esqueçam os livros
de nada eles valem... Saiam de casa sem hora
pra voltar, levem-me com vocês, vocês são incríveis

mas não tem a cura para minha doença que me putrefaz.
Ainda assim, jovens maravilhosos, me mostrem
o caminho que percorrem sem mapa rumo ao ponto
onde todas as verdades sorriem e todas as vaidades se cumprem
sem que a boca do mundo como ele realmente é
estraçalhe nossos ossos sem misericórdia.

domingo, 30 de agosto de 2009

Estou apaixonado pela vida. Passo olhando as cores e os ventos, as flores e os momentos, as dores e os lamentos, os amores e cumprimentos. O sol está doce sobre a boca timidamente sorridente da tarde. Mesmo pequeno, mesmo sozinho, mesmo despido, rio e danço, quando as circunstâncias dizem que não posso rir e quando o corpo teimoso insiste que eu não posso dançar. Minha voz está afinada e limpa, então canto para que escutem e para que cantem comigo, e para que façamos um hino e para que animemos o dia e para que façamos do dia uma festa encharcada de gargalhadas sem malícia, inundada de amigos que, não sendo numerosos, são grandes, imensos!, e não cabem em si. E que venham as memórias, e que venham os remorsos, e as tristezas, e os desejos destruídos, e sonhos despertados, e verdades escancaradas e segredos esquecidos: na cara deles, vou me armar do sorriso mais inocente que me deram os poucos mas gigantescos anos de vida. Meus companheiros buscam um caminho de fuga, meus amores se lançaram ao mar, minha ambiguidade revelou-se feroz e me engoliu diante do espelho. O horizonte do mundo está prestes a desmoronar, pois vou correndo mais rápido que a rapidez da Terra. E olharei o céu das madrugadas, e sua imensidade, e me sentirei pequeno porque o que existe é vasto e sou ninguém, mas o dia nascerá e eu terei a proteção das nuvens que me cobrem aqui. E que venha o sol esconder a lua, pois preciso dos dias, e das tardes e das alvoradas e de suas cores que em dez minutos me pintam por dentro maravilhosas. Preciso desesperadamente dos olhares poderosos da pessoa que amo querer, longínqua... Mas vou buscá-la para ver se a encontro, e se a encontrar, vou por-me tonto, e num beijo singelo vou inaugurar uma nova era. E não importa o que vão pensar sobre a minha obviedade, sou filho do amor mesmo e do amor eu vim e para o amor eu vou e que minha vida seja amor e que, quando eu morrer, minha lápide seja escrita com sinceridade pela pessoa que eu ame e que tenha me matado de amor. Beijo o mundo, amo a vida, observo o futuro e acaricio o passado. Irei de encontro ao mundo, que me chama, assim que acordar do sono que os pássaros da manhã me estão oferecendo como presente.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Anagrama pluvioso

Essa chuva encharca tudo
quando não se tem galochas.

Aproximadamente um milhão de poças
se formam na frente da minha casa

e nas poças até as cores
se encharcam
mudando de cor nos panos, nas paredes
e no asfalto.

Tudo fica molhado, algumas coisas afundam
outras boiam.

Com essa chuva invernal,
até as letras flutuam
e se embaralham.

Minha alma, por exemplo
acaba se encharcando tanto

que vira lama.

Anagrama pluvioso

Sem galochas
nem umbrela
chove chuva
na janela

eu me viro
pela cama
se me ama
um suspiro

chove chuva
encharcando
tudo é lama
lama em tudo

essa chuva en-
charca tudo
letras boiam
e afundam

chove chuva
enche d'água
alma encharca e
vira lama.


segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Para Pedro

Quando toca o laranja o azul dos tecidos
da cama e o bege das cortinas e o marrom dos cabelos
meus, desperto-me sem cerimônias e abraço
sem repugnância o corpo forte da aurora.
Vem o sol e aquece a pele e ilumina o caminho
e acende o sorriso que quero para mim.
E me diz a verdade, e me conta segredos,
e me abre cancelas que jamais antes vira
eu, que, preso no mundo, vivia liberto
em meu quarto diminuto. E quando vem
a luz mostrando a paleta dos olhos e das faces
e dos corpos que, nus, se recusam a perpetuar
a espécie, e das mãos que, por serem iguais
buscam tímidas o conforto de ambas, e dos pés
que, grandes como pontes, atravessam os rios
e destroem os fios tênues que tentam em vão
separar o real da ilusão amarga. E não perguntem

onde estava Deus, pois a resposta é incerta
e os olhares pecam e eles tem medo da retaliação.
Mas não há porta aberta, e dos altos das janelas
apenas os pássaros, que nada entendem, os olham
cantando árias e pequenas canções de amor.
Não culpem o espelho, seu reflexo era apenas
uma das fatalidades do sexo, que, fortuitamente
resolveu conspirar para que os abraços os fizessem
tornar-se em um corpo só. Sob o sol, sempre sós

somos nós, cegos nós, como o amor. Sob o sol,
vejo o sol, quero o sol, ardo o sol, sempre só
Com o azul dos tecidos e o marrom dos cabelos
e a paleta do olhar e os lábios vermelhos
e olhar no espelho e os dois eus sem medo
e o amor no olhar que ao meu é espelho
porque entre mim e mim mesmo inexiste
qualquer ponte, distância ou barreira
pois nós somos e seremos um só.

Um Pedro de cada lado
do espelho.

domingo, 2 de agosto de 2009

Ao falso gigante

Abra sua janela e feche sua cara:
seu comando indiscutível
já não é mais minha verdade.
Já comi do fruto proibido
e o bom e o mau se revelaram.
Já não temo o calor da minha carne:
sei que a vida independe de questionamentos.

A realidade que você prefere engolir a seco
dissipou sem misericórdia a névoa da dúvida.
O mundo é redondo, o céu é azul, você
terá de ir quando chegar a hora
e, agora, sei que a inaptidão é,
na verdade,
impossibilidade.

Então não me olhe como se eu cometesse
uma séria ilegalidade, não se cale
em busca de uma falsa seriedade
nunca tente
converncer-me de que o caminho a seguir
é aquele que você trilhou tão seguro
e tão pouco
sonhador.

Poupe-me completamente
de sua parca estupidez.
Se quiser, ignore o inevitável
na sua roda de amigos corretos
com opiniões irrefutáveis
e morais irreprimíveis
enquanto toma falsamente sossegado
sua cerveja do domingo.

Essa amarga cerveja de todo domingo.
Estupidamente
gelada.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Tentativa madrugada

Antes de nascer o dia
e de os olhos terem luz pra ver
eu me mantenho desperto
esperando o momento certo
pra me aproximar de você
e dizer o que eu queria.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Verdade

A verdade
existe.
É triste
ver a verdade
subjugar a ilusão.
Mas é malsão
acreditar que a verdade
é um abismo.
A verdade,
na verdade,
é só uma coisa.
Verdade.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

The Thirty of April

Aqueous, pluvious, tedious Thursday,
you, growing undesired herbs
over the sandy ashes
of Christopher the Founder
made April everlasting.
Cloudy, bluesy, moody Thursday,
don't you dare bringing back
my aprilian anguish.
Killer, dreamer, softer Thursday,
fastpace and leave my month
quickmove and go away
suicide and show my May.
Minorchord in my ears
a sweet blue little lullaby
while blueing my sun and
graying my sand and
rustycoppering my sea.
Blueish, grayish, saddish Thursday,
die away.

Thou art my summertime jazzy tune
bringing alone thy trombones and
thy trumpets out of a tired-till-death
20th century to coöperate with
Peter A. Gilmore's frustrated desires
of a slow beginning of a fifth month.
Ta. Ta-ta. Ta-ta. Ta-ta. Summertime—
bring me an oxymoron in a box.
Gris nimbus, shine on.
Translucidreaming an Ellington
and a Coltrane and an Eliot.
A verse and ten notes and a scale and a stanza.
Voyez, here's my cool extravaganza.
Recycled sheets wrap some words in a bin
while I cannot know whether it's already May.

May I take your order, sir?
said he, the faceless man in a sloppy suit.
A café crème for Ernest
while I scrabble the moleskine.
A café crème it is.
Double-breasted, I think to myself
though I couldn't comprehend why.
Oh and a brownie, with almonds,
have you macadamias?
I'm afraid not, I beg your pardon.
Then cocoa and almonds.
There were those well-known aprilian clouds
coming out of the hot café crème.
The moleskine closes himself
and the newspaper gets into my hand.
Can't believe the soviets got there first.
Cocoa and almonds, sir.
The coffee clouds outside begin to liquefy.
I appreciate it.

My neighbor, Mr. Schrödinger,
has this cat, its name is Brás Cubas.
It's Brás Cubas who wakes me up in the morning.
It's a crier. Everyday, at 5, it cries.
Out loud. As if its life was being taken
away along with its heart, lung or liver.
Never saw its lit eyes, or Mr. Schrödinger's,
for they never leave the house.
So can't it extinguish nobody's curse entirely,
the isolation, i mean? I asked Mr. Shrödinger
through the door. He didn't answer my question
and Brás Cubas kept on waking me up.
Evey single day.

Nonetheless, I'd rather wander
through the city, 'round the streets
stalking people I don't know,
getting lost and found and lost again.
And poetry, that's the actual freedom of mind.
Yesterday I saw a lady in her mid-40s,
she had the voice of a hummingbird,
and dressed like a gypsy, walking nowhere,
she asked people speak English?, and if they did
she would foresee their fortune, or misery,
with enigmatic words and fake looks.
But I wanted to know what she knew.
Yes, I do speak English.
Eh well well mista, I will reed yo fate.
Please do it.
I see dark. And I see a finish line.
You a crossin' dat line, but you not win.
What does that mean?
Don ask questions! The gods a merciful!
And by that point I thought she was a lunatic.
But wait. I see.
Her looks were now transfigures into stone.
You have very deep secret, mista.
I know, I know!
And you willin' to say it to yo freind,
a woman, is dat?
She love you indeed, but don show.
And you tink you big poet
and writa, I know!
But you will bot be recognised,
not until the end of April, mista.
And be carefulla of the ones who
might know yo secret, it could be bad fo you.
Oh, I see.
And now you owe me a nickel.
I walked away, she didn't know a thing.

O silver clouds of April!
I hail to thee!
Thy heavy waves of falling eyelids
ooze from the smokey cafés
and the untidy beds
and the whiskey-drinkers
and the jazz standards.
O opaque beauty of April skies
and thy precipitation,
come flood these eyes
which no longer see or read.
O April the neverending
the sadist the cruelest
the saddest of the Twelve
the ironic the bully
O die away,
April skies, April clouds,
April chords!

Are you ok, sir?
Sir, are you fine?
Mr. Vímara Peres,
do you feel good?
I'm bringing you tea, sir.
Where am I?
Here's the pill, sir.
Where the hell am I?
Have I dreamed?
Sir, swallow it.
Have I had hallucinations?
Do not spit it, sir, please.
What day is it today?
C'est l'11 Floréal, monsieur.
Open the curtains! Please open!
The usual closed April skies.
So this is not a dream at all?
Calm down, Mr. Vímara Peres,
April is almost over.

When Brás Cubas woke me,
I was drowned in a puddle of not-so-quiet feelings.
Dreams had been rough.
Nevertheless, I got on my feet
and dressed my robe down the staircase.
Goodmorninged all my thirty wives,
fis la toilette, put on the suit,
not as as sloppy as the one from the café crème gentleman
and went out the street.
A café crème for Ernest, I have said,
and double-breasted vanished across the aisle.
Moleskine during coffee,
my coffee was Brazilian, I was told.
The lightning silently shooshed
outside the glass, I spilled coffee
on the corner of the paper.
On the corner of the café, a man,
double-breasted said he called himself Hans,
ordered a cup of coffee. Pure.
I didn't feel sympathy for him,
I went away, but took a glimpse
of the pyramid he drawed on the napkin
with a closed eye over it.
I despised it and escaped,
Hans had never been there before.

But Hans followed me to Rue de Spleen,
where I lived, where I was just a foreigner,
who loved the clouds that passed.
And he knocked on Mr. Schrödinger's door,
whom I had never met, but I couldn't see him,
though I could hear them chatting precisely
and monotonously in German.
I can't understand German, you know,
one day I will. Perhaps.
Didn't invite me to the house, so I stood outside,
with my scrabbled moleskine,
underneath the falling sparks
of aprilian water.

Honey, say the Thirty in a chorus,
dinner is on the table, hurry,
we are running out of rhubarb!

Rhubarb. Rhubarb.
The Thirty wanted me to have rhubarb.
Thake that rhubarb, you Thirty,
and put it up in you past.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Poema morto

Na rua das boas notícias,
com um sol que brilhava como se nunca mais fosse amanhecer,
eu fui tristemente assassinado.
Todas as casas fecharam as janelas para não ver
o pobre corpo estendido no chão.
Os carros desviaram sua rota
e preferiram seguir pela via principal.
Os bichos entraram nas tocas, e o sol,
envergonhado pelo que tinha testemunhado,
escondeu-se sob seu edredom de nuvens.

Mas o cotidiano seguiu pacato
enquanto eu, morto, sonhava com todas as vezes que sorri
por pressentir o paraíso.

Poema soturno

Carrego em meu ventre
um filho morto.
Espero seu choro seco
sabendo que não virá.

Meus olhos estão secos:
não choro.
Apenas espero a dor
do parto inútil.

E o amor não vem.
E meu sentir é defunto.

Às vezes arrependo-me profundamente
de ter escolhido a verdade.
Consola-me a perspectiva de que
em um dia fortuito
tudo virará mentira.

Carrego a morte que cresce
em meu ventre encharcado de vida.
Carrego a simples verdade
de que tudo será mentira.
E tudo não mais será.

Mas antes meu filho nascerá.
Morto.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Poema só

Me vejo
como vim ao mundo
com pesar profundo
sem nada
nem ninguém
sem solução
ou mesmo problema
sem poema
por já não saber escrever
e a caneta
que já não me obedece
não cresce
pois estou só
e só
não sou ninguém
pois não há ninguém
que me chame de alguém
estou sem
invejoso daquele que tem
seu bem
do lado
minha vida agora é fardo
pois estou só
e é tão pequeno estar só
que é só isso
não dói
no coração de quem é início
— eu sou algo já sem fim.
Sim.
Nem vontades tenho
agora
sem verdades estou
agora
sou vaidade só
agora
sou um padre
sem hora
pra rezar
embora
esteja casto
como um santo
— faz-me casto
mas não agora.
Fiz-me gasto
embora novo
tenho defeitos
não tenho jeito
sou um estorvo
de mim, enfim
sou agouro
do mau fim
não sei nada
da verdade
da maldade
da tristeza
da moleza
da mentira
porque sou eu
num canto
sem mais nenhum pranto
sem nenhum manto
que me cubra
do nada
querer.
Só sei querer
e se quero, perco
perco e desisto
desisto e finjo
e não cumpro
e não mais prometo
minhas promessas
a despeito
da vontade
de ser grande
enorme
que mora em mim.
Tenho dúvidas
sobre uma inteligência
que estimo
genial
o mau
é que não mais sei
se o mau
me é bom
ou se estou
enganado
pois do meu lado
já não há mais nada
ou ninguém
eu já não sei quem
sou
porque sou
mau
sou animal
sou boçal
sou mau
e, mais que tudo,
sou só.
Sozinho
a meu canto
choro um pranto
falo uma língua
que me lambe
e me deixa
nu
e me deixa ser
e escrever
e beber
pois só
estou
e só
sou
até o momento em que a cor voltar
e houver aurora
no horizonte.
Até lá, ego meu,
estarei inteiramente nu
e só.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Animus agendi

Não há nada mais sufocante que o tédio
de não saber onde se está, para onde se vai
ou de onde se veio, então vou-me embora
para algum lugar longe de agora, onde então
eu possa tocar e beijar e chorar livremente.
A desventura das rochas, a criatura das celas,
a loucura dos desertos, e seu fascínio
quero-os fora do meu domínio, domínio de ser
e sobretudo de agir, polissemicamente.

As verdades, no entanto, tentam burlar
minhas vontades, e minhas vontades
querem concretamente me destruir no limbo.
Não sei quem sou ou quem quero ser, mas quero
apenas querer, mas querer não é agir, e agir
é ato, mas querer é fato, e fato é verdade,
não vontade, vontade é agir e agir é o que quero.
Sou ferido frequentemente por um sem-fim
de raios de sol, de noites súbitas, de casais terceiros
e beijos certeiros e o fim de janeiro e fevereiro
e março, também: tende piedade, mês-mais-cruel.

Se Circe me levasse navegador em seus olhos egeus,
já nada pediria: só seria. No leito seu, bem poesia.

Quero ir, mas já não sei se posso.

terça-feira, 10 de março de 2009

Tédio ou cotidiano

Não há poesia
na barra do dia
na vinda da noite:

só o avião vai
e tudo fica.

Canoa não tem motor
bicicleta não tem motor
cavalo não tem motor
e a poesia,
no fim do dia,
também não tem motor.

Se a boca se abre,
é pra sair som
e se som ecoa
escuto.

Toda a verdade permanece intacta
e não há fronteiras além do horizonte.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Vida Pó Poesia

Há o asfalto e o concreto
o meio-fio e o fio elétrico
o metal da britadeira
contra a pedra da calçada
e o vidro do relógio
escondendo nosso tempo
e a taça de cristal
abrigando nosso sonho

e o caminho de piçarra
e a jarra de bebida
e a lida do mulato
e o fato do jornal
e o astral da cartomante
e o rompante de loucura
e a cura da doença
e a crença da velhinha
e a pinha do arbusto
e o busto da mulher
e a colher da feijoada
e a amada do poeta
e o esteta da escrita
e a brita da palavra
que ele lavra
escultura
cultura
vida
pó.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Meus verdadeiros amigos são muitos:
Não mais que uma dúzia de pessoas
e umas muitas dezenas de livros.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Carnaval

Me diga quem você é
por favor
me diga quando vem me ver
me diga quando vai fazer
o que quer
me fale quando quer morrer
que vou com você
me avise quando for chorar
que me acabarei
e na quarta-feira de cinzas
comece o carnaval
amanhã volta tudo ao normal
mas o bloco não terminou
ainda quero dançar
quero começar
porque, amor,
nessa minha escola todo dia é dia de carnaval.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Alegoria do presente erodido

Para T.S. Eliot.

"O hábito tem-lhe amortecido as quedas"
— Clarice Lispector

"At midnight, in the month of June
I stand beneath the mystic moon
[...]

The lady sleeps! Oh, may her sleep,
Which is enduring, so be deep"
— Edgar Allan Poe


I. Prelúdio sonolento

Madrugada
na rua
só a lua
despida de poesia.
Um gato
traz em seus olhos
faróis
de carro
e vai embora.
Agora
a essa hora
até os bandidos
dormem
com medo
do monstro debaixo da cama.
As avenidas da cidade
no escuro
são uma teia
e no escuro
sob a cidade
uma aranha gigante
come lixo.
A população dorme
ou morreu há duas décadas.
Nem grilos
há.
Putas ficam paradas
nas esquinas
feito repartições públicas
e as repartições
se vendem
feito putas.
Mas não agora.
Não existe dinheiro
agora.
Não há conversa
agora.
Na cidade fantasma
estou só.
Nada faço
só estou.
O dia se foi há horas
e no por do sol
uma menina se casou
e foi morar
no Musée d'Orsay
enquanto outra
chutou uma nádega
e foi aninhar-se
no colo de uma rocha.
Não há ninguém
competente em Brasília
e São Paulo está
muito menos feliz.
E o barulho de um carro
parecia um carro
mas era
o vento
com certeza
pois não há carros agora
se não há motoristas:
nem mesmo
os semáforos
estão funcionando.

II. Angústia da liberdade à Neruda

Faz quanto tempo
que anoiteceu?
Aonde foi o sol
que me trouxe a lua?
E aquela dança
que a lua fazia?
Por que só responde o
que eu pergunto o eco?
Que sentido existe
em compor poesia?
Cadê meus amigos
desde o fim do dia?
Por que bom dia eu falava
se só respondem boa noite?
E por que a noite é boa
se ninguém está acordado?
Para onde vou se a avenida
se esvai em doze ruelas?
Por que dizer eu te amo
se agora só tem cadela?
Por que eu estou vestido
se não há hinguém olhando?
Por que estou perguntando
se ninguém nunca responde?

III. Elegia nostálgica

Recordo-me
nitidamente
de uma grande certeza marcada
na agenda
para acontecer em oito.
Mas não foi.

IV. Resposta cínica à elegia nostálgica

Você não usa agendas
nem nunca as usou.
Pra quê lamentar as sendas
que nunca respeitou?
Em vez do trabalho é praia
em vez do estudo é amor
quer plantar com a mão adubo e
morrer sob o trator!
Não pedi que me encontrasse
enquanto era dia
mas talvez você achasse
quis ver o que faria!
Quis ver o que você faria
não é nada de mais.
Eu sempre controlaria
meus atos propositais...

V. Tédio sem perspectiva

Que fazer quando é noite
e a noite
tapou meus ouvidos
ou as bocas enormes
de quem se diz estar dormindo?
Para onde ir?
Para as ruas de asfalto.
Que fazer?
Ir atrás do sol posto.
Posto onde?
Vamos descobri-lo.
Esse sol está aí escondido
em algum lugar
seguindo a pista de piche
procuro sem saber onde.
Leiteiro! Leiteiro!
onde
diabos o sol se esconde?
...
Menino do jornaleiro!
que caminho pego
pro sol de fevereiro?
...
Vigia noturno!
Vigia!
— dorminhoco sem vergonha.
Dizem esses meus poetas
o sol
dorme
no mar
mas a praia é uma enorme
placa de não perturbe.
February is the cruellest month
que sorte que é o menor
de todos.
Vamos, sapatos
direita
esquerda
de novo.
O vento
sabe de tudo
mas
sua língua eu não falo.
Fico parado
pra ver
se ganho paciência
de árvore.
Sem relógio, não sei
que horas vai amanhecer
nem sei
se de fato
o tempo
está mesmo
passando.

VI. Verdade do otimismo

Depois de horas de espera
árdua
pesada
hostil,
ele consegue encontrar seu destino
ou seu objetivo ou
sua meta ou
sua linha de chegada ou
seu dia raiado.
¡Oh!, qué llanura empinada
Con veinte soles arriba.
Depois dessa noite velada
sem sono
sob o sol
ele encontra a rota perseguida!

VII. Devaneio do pessimista que se diz realista

Todos os relógios se traíram
face ao destino implacável
e tempo parou num assobio
do vento ou nenhum barulho.
Ferido de amor, caiu
e agonizou sem morrer
pois mesmo a noite morria
sem o dia amanhecer

Ô mon Dieu, vous l'avez blessé d'amour !

ACTA NON VERBA,
Petrus Vimaranes. II/MMIX.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Depois da epifania

O amor que me cala
é o que me entristece
porque outro fenece
na sua morte de fala
na sua morte de nada
na sua morte de amores
de bem longe de mim
mas o amor que me cala
é o amor que me alegra
porque surge na pedra
como audaciosa flor
ele vem de repente
com mirada contente
sem procura ou espera
ainda assim, o amor
que me surge do nada
nada absoluto
é um amor que não pode
me fazer gargalhar
me fazer escrever
me fazer suspirar,
soluçar, já não posso
nem chorar, nem morrer
todo dia um pouco
nem amar como um louco
porque amor, amor mesmo
tive um, um apenas
e acabou sem mais nada
nem saudade calada
nem tristeza velada
nem vontade de volta
esse maior de todos
esse amor dos amores
essa monstruosidade
essa pura inverdade
essa crua imensidade
foi-se embora sem volta
e agora estou só
vendo um amor que me surge
repentino e feliz
na sua imensa tristeza
de não poder ser grande
de estar sempre à sombra.
Mas que seja bonito.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Hai-cai pulsante para um amor errante

Se eu te acho agora
Eu te guardo aqui do lado
E congelo a hora.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

A Terra Baldia (The Waste Land, T.S. Eliot), Cantos I e II

Nam Sibyllam quidem Cumis ego ipse oculis meis vidi in ampulla pendere, et com illi pueri dicerent: Síbylla tí theleis; respondebat illa: arothaneîn thélo.

Para Ezra Pound
il miglior fabbro

I. O ENTERRO DOS MORTOS

ABRIL é o mês mais cruel, criando
Lilases da terra morta, mesclando
Memória e desejo, misturando
Raízes toscas com chuva primaveril.
O inverno nos aqueceu, cobrindo
Terra em neve esquecida, nutrindo
Uma pequena vida com legumes secos.
O verão nos surpeendeu, vindo sobre o Starnbergersee
Com um banho de chuva; nós paramos na colunata,
E seguimos à luz do sol, ao Hofgarten,
E tomamos café, e conversamos por uma hora.
Bin gar keine Russin, stamm' aus Litauen, echt deutsch.
E quando éramos crianças, na casa do arquiduque,
Meu primo, ele me levou num trenó,
E eu estava apavorada. Ele disse: Marie,
Marie, segure firme. E descemos.
Nas montanhas, lá você se sente livre.
Eu leio, muito da noite, e rumo ao sul no inverno.

Quais são as raízes que agarram, que galhos crescem
Desse lixo pedregoso? Filho do homem,
não pode dizer, ou adivinhar, pois só conhece
uma pilha de imagens caídas, onde o sol bate,
E a árvore morta não dá abrigo, e a cigarra não dá alívio,
E na pedra seca não há rumor de água. Apenas
Há uma sombra sob esta pedra vermelha,
(Venha para baixo da sombra dessa pedra vermelha),
E eu lhe mostrarei algo diferente de tudo
Sua sombra pela manhã andando atrás de você
Ou sua sombra ao fim da tarde crescendo para encontrá-lo;
Mostrar-lhe-ei medo num punhado de pó.
Frisch weht der Wind
Der Heimat zu.
Mein Irisch Kind,
Wo weilest du?

'Você me deu os jacintos há um ano atrás;
'Me chamaram de menina do jacinto.'
— Ainda assim nós voltamos, tarde, do jardim dos Jacintos,
Seus braços cheios, e seus cabelos molhados, eu não podia
Falar, e meus olhos falharam, eu não estava
Nem viva nem morta, e eu nada sabia,
Olhando no coração da luz, o silêncio.
Od' und leer das Meer.

Madame Sostris, famosa clarividente,
Teve um forte resfriado. Mesmo assim
É conhecida como a mulher mais sábia na Europa,
Com um baralho torto. Ei-la, disse ela,
A sua carta, o afogado Marinheiro Fenício,
(Essas são pérolas que eram seus olhos. Veja!)
Aqui está Beladona, a Dama das Rochas,
A dama dos problemas.
Eis o homem das três tábuas, e eis a Roda,
E eis o mercador caolho, e esta carta,
Que está em branco, é algo que ele carrega nas costas,
Que estou proibida de ver. Não encontro
O Homem Enforcado. Tema a morte pela água.
Vejo multidões, andando em círculos.
Obrigada. Se vir a Sra. Equitone,
Diga-lhe que eu mesma trago o horóscopo:
Deve-se ter cuidado esses dias.

Cidade Irreal,
Sob a névoa marrom de uma alvorada de inverno,
Uma multidão fluiu sobre a Ponte de Londres, tanta gente,
Não pensei que a morte tivesse desfeito tantos.
Suspiros, curtos e infrequentes, foram exalados,
E cada homem fixou seus olhos ante seus pés.
A multidão escorreu ladeira acima e desceu a Rua do Rei Guilherme,
Para onde Santa Maria Woolnoth guardava as horas
Com o baque surdo do último badalar das nove.
Lá avistei um conhecido, e o parei, gritando 'Stetson!
'Você que foi comigo nos navios em Mylae!
'Aquele cadáver que você plantou ano passado em seu jardim,
'Começou a brotar? Vai florecer esse ano?
'Ou o gelo inesperado perturbou seu sono?
'Oh mantenha o Cão longe então, ele é amigo para o homem.
'Ou com suas unhas ele vai cavar de novo!
'Você! hypocrite lecteur!—mon semblable,—mon frère!'

II. UM JOGO DE XADREZ

A CADEIRA em que ela sentou, como um trono polido,
Brilhou sobre o mármore, onde o copo
Segurado por padrões forjados com vinhas frutadas
De cujas frestas observava um Cupidon dourado
(Um outro escondia os olhos sob a asa)
As chamas redobradas do candelabro de sete hastes
Refletindo a luz sobre a mesa enquanto
O brilho de suas joias ergueram-se para encontrá-lo,
De estojos de cetim derramadas em rica profusão;
Em frascos de marfim e vidro colorido
Destampados, mantendo à espreita seus estranhos perfumes sintéticos,
Unguento, pó, ou líquido — incomodado, confuso
E com o sentido afogado em odores; misturados pelo ar
Que soprava fresco da janela, estes ascenderam
Aumentando as chamas prolongadas das velas,
Lançaram sua fumaça sobre o verniz,
Misturando-se aos motivos do teto adornado.
Enorme bosque marinho alimentado a cobre
Queimado verde e laranja, emoldurado pela pedra colorida,
Em cuja luz triste um golfinho talhado nadava.
Acima do manto antigo era exibido
Como se uma janela se abrisse à cena silvestre
A mudança de Philomel, pelo rei bárbaro
Tão rudemente forçada; ainda assim lá o colibri
Enchei todo o deserto com voz inviolável
E ainda assim chorou, e ainda assim a voz persegue,
'Jug Jug' para maus ouvidos.
E outros murchos tocos de tempo
Foram ditos pelas paredes; formas arregaladas
Saíram, inclinando-se, acalmando o cômodo fechado.
Passos soaram na escada.
Sob a liz do fogo, sob a escova, seu cabelo
Espalhados em pontas de fogo
Brilhou em palavras, para depois aquietar-se selvagemente.

'Meus mervos estão ruins hoje à noite. Sim, ruins, Fique comigo.
'Fique comigo. Por que nunca fala? Fale.
'Em que está pensando? Pensando em quê? Em quê?
'Eu nunca sei no que está pensando. Pense.'

Creio que estamos no beco dos ratos
Onde os homens mortos perderam seus ossos.

'Que barulho é esse?'
O vento sob a porta.
'Que barulho é esse agora? O que o vento está fazendo?
Nada de novo nada.
'Você
'Não sabe de nada? Não vê nada? Não lembra
'De nada?'
Lembro
Essas são pérolas que eram seus olhos.
'Você está vivo, ou não? Não tem nada em sua cabeça?'
Mas
Ó Ó Ó Ó esse Trapo Sheakesperiano —
É tão elegante
Tão inteligente
'Que fazer agora? Que fazer?'
'Devo correr como sou, e andar na rua
'Com meu cabelo para baixo, então. Que fazer amanhã?
'Que fazer sempre?'
A água quente às dez.
E se chover, um carro fechado às quatro.
E vamos jogar um jogo de xadrez,
Apertando olhos sem pálpebra e esperando por uma batida na porta.

Quando o marido de Lil' foi reformado, eu disse —
Não atenuei minhas palavras, disse para ela eu mesmo,
CORRA POR FAVOR É HORA
Agora que Albert está voltando, faça-se um pouco mais esperta
Ele quererá saber o que você fez com o dinheiro que ele deu
Para te dar alguns dentes. Ele deu, eu estava lá.
Você não tem nenhum, Lil, e consiga uma dentadura,
Ele disse, eu juro, não aguento olhar para você.
E não mais posso eu, eu disse, pensar no pobre Albert,
Ele está no exército há quatro anos, ele quer se divertir,
E se não der a ele, há outras que o farão, eu disse.
Oh tem sim, ela disse. Alguma coisa assim, eu disse.
Depois saberei a quem agradecer, ela disse, e me deu um olhar grave.
CORRA POR FAVOR É HORA
Se não gostar pode jogar fora, eu disse.
Outros podem pegar e escolher se você não.
Mas se Albert fugir, não será por falta de aviso.
Você deveris se envergonhar, eu disse, de parecer tão antiga.
(E ela só tem tinta e um.)
Não posso evitar, ela disse, fazendo uma cara triste,
São essas pílulas que tomo, para por para fora, ela disse.
(Ela já teve cinco, e quase morreu do jovem George.)
O químico disse que ficaria tudo bem, mas nunca fui a mesma.
Você é mesmo uma tola, eu disse.
Bem, se Albert não a deixará em paz, aí está, eu disse,
Por que se casa se não quer filhos?
CORRA POR FAVOR É HORA
Bem, naquele domingo Albert estava em casa, eles tinham toucinho quente,
E eles me convidaram para jantar, para ver a beleza dele quante —
CORRA POR FAVOR É HORA
CORRA POR FAVOR É HORA
Boa noite Bill. Boa noite Lou. Boa noite May. Boa noite
Ta ta. Boa noite. Boa noite.
Boa noite, senhoras, boa noite, doces senhoras, boa noite, boa noite.

(T.S. Eliot. Tradução de Pedro Guimarães)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Em casa

Estou completamente só.
Não há ninguém comigo.
Memórias me rondam.
Nada faz mais sentido.

Nada mais está em sua ordem natural.
Estou muito, muito longe
de casa.
Eu não sei onde fica minha casa
e minha casa nunca me viu.
Algum lugar aí
é minha casa.
Se me perguntarem onde é minha casa,
não saberei.

Eu
FUGI
de casa.

Fugi do meu refúgio.
Meu mundo, meu universo.
Fugi. Deixei-o pra trás.
Para nunca mais.

Estou longe, muito longe,
muito, muito longe
de casa.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

2008 foi um ano ruim

Oito foi um ano ruim. Não troxe consigo a alegria de seis ou a grandiosidade de sete, ou mesmo a epifania de cinco. Oito foi um ano sóbrio, triste e de cores esmaecidas e um tanto opacas; um ano cinzento, diria. Lembro-me de seis, aquele ano alegre e vívido, um ano que até a data de hoje me traz de súbito uma grande risada quando é lembrado. Ou ainda de sete, um ano de grande jornada e grande conquista e grande luta também. Oito foi sem-graça como quatro, como noventa e sete, e alguns outros noventas da minha infância de século passado. Em oito nada de grande aconteceu. As coisas grandes de sete e de seis, e mesmo de cinco, pareceram perder sua grandeza e tornaram-se apequenadas, até que sumiram: oito terminou com uma grande sensação de vazio. Em oito acabou a busca da grande meta, a concretização dos grandes planos, em oito foi revogada a lei que eu tinha escrito com meu sangue. De tanto que queria antes ir embora para o mundo, fiquei. As ideias que tinha antes tão veementes viraram cinza jogada ao vento das circunstâncias. Abandonei meu sonho maior, a alma mater sonhada sumiu quando despertei assustado na periferia da cidade natal. Uma verdade triste e deliberada que existiu por causa das porcarias do amor. De um grande amor. O maior de todos. O amor insuperável. Por causa dele abandonei sonhos, esqueci objetivos de vida, escolhi o caminho vicioso e por causa dele entristeci. E por causa da tristeza emudeci, e por causa da mudez, incomodei, e por causa do incômodo, feri, e por causa da ferida matei. Matei a mim primeiro, e ela, Julieta, matou-se em seguida. Morreu o maior de todos os amores, o amor que traziam cinco, seis e sete, e que oito matou. Extinguiu-se também o maior de todos os sonhos, o sonho que traziam cinco, seis e sete, e que oito destruiu. Cinco criou, seis e sete mantiveram, oito destruiu. Oito foi o ano destruidor. Oito terminou sem perspectiva. Sem futuro. Sem nada. Que nove seja o início de uma nova jornada, uma jornada que se etenize em algo grandioso, lindo e perfeito. Que nove seja a ponte fantástica entre o caos de oito e um porvir de ordem. A esperança é grande para a década de dez, que se aproxima.