quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Incerteza

É engraçado como às vezes fazemos coisas
sem saber que aquela é a última vez.
Aquela comida naquela viagem
que nunca mais comerei
ou aquela cidade linda
em que nunca mais pisarei os pés
o olhar lindo que desceu
uma estação antes da minha
são prova dessa Grande Incerteza.

Andamos de costas.
Vemos apenas o caminho por onde passamos
mas nunca sabemos o que há por vir.
Se soubéssemos, quão solenes seríamos.
O filho que cumprimenta o pai
pela última vez antes do infarto.
A mãe que beija o filho ternamente
como fazia quando lhe dava do peito
antes do acidente inevitável.
O descanso sob a árvore
cortada para dar lugar a um estacionamento.
Como seriam solenemente aproveitados
esses momentos, se soubéssemos
que eram os últimos...

E o que faria eu
se soubesse
que o beijo de boa noite que te dei
ficaria na memória
entraria pra história
como o ponto final de uma história feliz?

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Ausência

Faz tanto silêncio
que escuto nos carros
conselhos sussurrados
o som dos lençóis
quando me mexo na cama
chama seu nome
o vento balança
as cortinas
e o ruído que sai
é um eco de quando
ouvi sua voz
pela primeira vez

mas agora faz silêncio
e eu só espero
poder ouvir de novo
sua respiração
tão perto de mim.

segunda-feira, 31 de março de 2014

O pecado da dúvida

Na sala mal iluminada onde os livros vêm morrer
cada página escrita pesa trinta toneladas.
Veja, minha mãe, como envelheci nos versos
mal traçados dessas velhas bíblias excomungadas
buscando o caminho dos céus, que por capricho não existiam.
As cruzes nos tribunais são lápides em mausoléus
dos sóis mornos que havia nas manhãs quando acordava.
Agora nem peixes há no mar, nem bichos na terra
nem gente existe mais neste deserto de edifícios:
as páginas dos livros são fortaleza edificada
— fósseis petrificados de uma ânsia pela vida.