quarta-feira, 19 de novembro de 2008

O chato excesso na esquina ou quando os sinos calam

Há um quê
de verdade maldita
em todo poema.

E, dita mal,
a verdade
não pode ser compreendida.

Há um quê
de amar desmedido
em todo escândalo.

Mas o sândalo
vagabundo da voz
não me agrada o olfato.

Há um quê
de perder pouco a pouco
em todo o seu medo.

O problema
é matar a paciência
de todo e qualquer Pedro.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

A saudosa rapsódia dos meus anos

A voz da cantora me canta
anacrônica há dez anos atrás.

O porta-retratos da sala
mostra meu infante sorriso sincero.

O gosto amargo do scotch
é prova implacável do agora
e da vinda veloz dos anos.

O filme que vi no cinema
há coisa de mais de uma década
passa seus frames no fundo de meus olhos.

Meu pai usa óculos para leitura
e seus poucos cabelos estão grisalhos.

Minha mãe já não convence
com seus vinte-e-nove anos.

Por trás de minhas costas
há o choro da mulher que a mim se apegou,
há um sonho frustrado,
há muita cachaça pra a dor
e muita risada pro pranto.

Há traições de amigos, que perdoei
e fingi que nada foram,
há um mil-réis de poesia,
que leio e releio achando ruim,
há paz toda noite ao dormir.

Há saudade do amigo distante
e alegria pelo que se reaproximou.

(Ô novembres ! étés ! cajous !
Epígrafes de meus dezoito anos!)

Com uma caneta em mãos, rezo preces
de gratidão, choro um pouco
de felicidade, sinto um saudosismo
que me toma devagar como uma carícia.

Uma carícia assim, meio mãe,
meio mulher, talvez.

Novo Sputnik

Olhei para o céu
mas era lua nova
vi sputnik cinco
com dois cachorros dentro.

Os cachorros longe
os cachorros voam
cães em sputnik
e eu de pés no chão.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Poema arbóreo

Tenho meus pés fincados no chão
como raízes.

Conheço a terra em que me prendo
e o horizonte que observo.

Às vezes presto-me aos meus mais altos
delírios de fronde,
meus devaneios que vão longe com a brisa
e que espalham por aí
pequenos ideais que o vento faz flutuar.

Mas, veja bem,
mesmo com tanto devaneio que flutua,
mesmo com tanto delírio da mais alta fronde,
eu permaneço em meu velho horizonte
com meus pés fincados no chão
como raízes.