sábado, 30 de janeiro de 2010

O lenço de Heathrow (esboço)

Um velho homem entra no café bem vestido em seu terno italiano — ele próprio parecia ser italiano, pelo jeito que cantava as sílabas — e senta no sofá perto da parede. Seu filho — parecia seu filho — vai ao balcão para lhes comprar duas grandes xícaras de capuccino e um pain-aux-raisins que parecia delicioso. O velho, esperando o filho, reclina as costas na espalda do sofá com um ar cansado. Tira do bolso interno do paletó um lenço antigo e, sem cerimônias, cobre a boca e tosse longamente. Como um galã decadente, recompõe-se em seguida, limpando os lábios em seguida e retornando à posição elegante com que havia chegado. Mantém-se em sua elegância durante alguns minutos. Sua postura rígida, seus lábios cerrados rispidamente, seus cabelos — escassos — penteados anacronicamente com algo que parecia brilhantina, tudo contrastava com o olhar frágil de criança após cair ao chão, que como um dique antigo, ameaça vaziamente jorrar.

Seu filho retorna e lhe chama o nome, não lembro se Francesco ou Luigi, Massimo ou Filippo, mas o velho não responde: apenas na terceira tentativa o filho consegue chamar a atenção do pai, que sussura algo como se pedisse perdão por sua distração. Pega cautelosamente a xícara e bebe devagar. Comenta algo com o filho com um sorriso frágil nos lábios, provavelmente rindo da falta de talento dos ingleses em preparar café como os italianos. No entanto, toma seu café elegante mas fragilmente até o fim. Come um pedaço do pain-aux-raisins por insistência do filho, mas recusa um segundo pedaço e o filho, resignado dá de ombros, acena negativamente com a cabeça em reprovação, mas aproxima de si o prato com o pão e começa a comê-lo. O velho, terminando de sorver as últimas reminiscências de espuma sorvíveis da xícara, põe-se a olhar, sem ver, os desenhos que o café havia deixado na cerâmica.

O filho, olhando no relógio, se espanta e fala apressadamente algo ao pai. Levanta-se ligeiro, e, como se percebesse algo ou como se ponderasse a importância dos seus afazeres, para e fita o pai longamente. Dá-lhe um beijo longo em cada lado da face e o abraça durante longos segundos. Olha o monitor das partidas e lembra ao pai que horas são. O velho acena com a cabeça lentamente. O filho, então, beija novamente o pai e se vai, recuperando o ar apressado. Para na porta e olha para o velho uma última vez antes de sua partida. O pai permanece imóvel no sofá, rígido mas frágil, pensando na vida.

Por fim, suspira fundo, põe-se de pé com algum esforço, colhe sua maleta e segue em direção à porta. Para mais uma vez, retira novamente o lenço antigo do bolso, cobre a boca e tosse com mais espalhafato que da primeira vez. Continua andando em direção à placa que diz partidas, olhando para o lenço antigo, que, sabia o velho, logo logo seria do seu filho.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O caminho para a distância (II)

São árvores que passam rápidas
pala janela
e nuvens que se fundem
ao céu
que me revelam a saudade
do verde mais verde
e do branco mais branco
da minha casa.
Não há conções quentes
neste lugar
e os sabores
não me satisfazem.
Sua beleza temporária
jogada pelos campos nevados
e pelos edifícios sepultados
me atrai
e me destrói.
O azul aqui é menos azul
e o amarelo, menos verdade.

Mas sigo em frente
em êxtase
desejando que tudo seja um sonho
lindo,
do qual eu venha a acordar
quando acabar.
E estarei deitado em minha cama
mais azul
debruçada sobre o rio e mirando
as ondas do mar.
Ao sul pertenço e do sul
jamais me desfarei.
E poderei entristecer
ao não ver o oceano
e poderei desonrar certa vez
minha língua-mãe
mas o bom filho
à casa sempre torna
e minha vontade é de ser bom
se puder.

Mas enquanto estou longe,
corro ligeiro por campos sem nome
passo por cidades
cujo povo jamais conhecerei
encontro meu olhar
com o de desconhecidos
que nunca mais verei novamente.

E sou feliz na minha dor.
Tenho música e tenho poesia
e gravo imagens para a posteridade,
sem medo e sem virtude
e me entrego a línguas que desconheço
e me destruo a cada esquina
e me refaço na surdina
e permaneço sempre constante,
mesmo longe,
na minha inconstância reflexiva.

Canção do Exílio

A vida era mais fácil
quando a distância para o exílio
era um desejo infungível dos dias
e madrugadas.
Quando não se percebia a vastidão dos oceanos
e se sentia que o mundo era pequeno
como o quarto azul dos trópicos. 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Pequeno retrato de Amsterdã

Pequenos prédios tortos
se debruçam sobre canais
que cantam cantigas velhas
pela boca dos sinos
e dos cisnes.
Um olhar se desvia
ao ver, puritano,
amor de verdade
enlatado na vitrine.
Sem pudor, jovens são jovens,
e à meia-noite, se reúnem
num culto misterioso
ao prazer.
E os sinos dobram
e a cidade, em festa,
dança animada as cantigas
velhas como a pedra
fundamental das pequenas alegrias.