segunda-feira, 23 de abril de 2007

Foi um rápido sonho. Mas, como todo sonho, possuiu dentro de si um elemento que o torna inesquecível, e lindamente absurdo. Não seria sonho se não tivesse a efemeridade das causas perdidas ou a beleza surreal e imaginária das criaturas e dos lugares fantásticos.

Sim, foi rápido, mas na imensidade de sua rapidez gravou a mensagem que há muito jurara com palavras mudas. Consumou-se na consumação de suas ambições supérfluas, pois não há nada mais fundamental que o supérfluo — nem nada mais supérfluo que o fundamental . O mundo é absurdo e belo, é verdade.

Durante sua rapidez assisti à derrota em uma luta que parecia vencida, e ainda assim não senti pena. Vi a decepção por causa de expectativas que foram alimentadas em vão — mas vi também a glória nos lugares mais inesperados. Voei por infinitas vezes como um anjo fora de sua realidade, e outras tantas desci para manter minha realidade acesa. Consegui. Me arrependi. Deveria ter ficado naquele estado de anjo. Sonhos acabam.

Fiz umas tantas confissões a minha alma, e outras tantas escutei dela. Velhos conceitos desmoronaram-se ante meus olhos sonolentos e outros foram construídos com braços invisíveis. Não faz sentido aos ouvidos das pessoas, mas é compreensível a um nível um tanto mais interior. Sonhos não fazem sentido a olhos despertos.

Senti novos cheiros e experimentei novos sabores, conheci novos rostos e decorei seus nomes como quem come uma comida de sabor enfadonho. Quis e fiz. Desisti e arrependi. Sonhei. E acordei. Conheci e aprendi um pouco mais da vastidão do mundo. O mundo é grandioso como a noite.

Meus dedos despertos escrevem quando todos dormem. Não sei se ainda sonham ou acordam do sonho consumado. Eu acordei, e não estou certo se estou triste ou muito feliz.



Eu acordei do sonho consumado, e deixei para trás um conto artificial e mágico. O mundo é o maior sonho de todos, tenha certeza. Eu nunca acordarei do sonho consumado.

Sobre os tempos

Cantemos, pois é tempo de luzes
E o efêmero se dissolveu ante o cheiro de sua beleza.
Não nos afastemos mais.
Seu romantismo inocente,
Seu modernismo absurdo,
Sei que posso escondê-los sob as chagas da minha pele.
Peço que seja a chave que me liberta o verso.
Vamos unir seu tempo que goteja a meu tempo que irradia
Consumemo-nos num sonho e vivamos a doce realidade crua.
O gosto das palavras não deixa a boca cálida de minha caneta
O gosto de sua boca cálida não deixa minhas palavras.
Espero que desse tempo absurdo nasça a absurda poesia de um tempo de sonho.

Batalhões

Aspirantes a adultos
Dispostos em batalhão
Sob o céu, sobre o planalto
Acotovelam-se ante o portão
Portão estreito da vida adulta.

Batalhões assustados
De baionetas canetas
Esperam a hora da batalha
De uniformes sortidos
Na cidade jotacá.

The birth of poetry

A blank sheet
A word
A phrase
A verse
A stanza
A shape
A soul.
Poetry is made of hearts and dreams and thoughts
It needs a body, it needs a skin, but, more than everything
It needs a neverending personality,
It needs to be sewed in waterish knits
Which flow and fade and make no sense
Until a sense is born behind the concrete, stiff body.
Body and soul need to unite in an insane hug
To create a new being, a new entity
Born and raised by a poet’s hand.
Poetry is now born, and each eye that looks as its face
Sees a different sight, different eyes,
And, through them, sees a different soul.
Poetry is made of hearts and dreams and thoughts and eyes,
Only by them can it reach immortality.

Elegia a um quase amor

Quando te observo de longe
Já não sinto: lamento
Teu encantamento sem culpa
Tua paixão sem pretensão
Teus gestos que desconheço
Tua métrica fixa
Teu sonho.
Adormeço só, com a noite:
Uma reles solitária em meus braços vazios.
O céu cobriu-se para que eu não visse a lua.
Quanto mais me aproximo de ti
Mais reconheço tua distância inalcançável.
Teu olhar não mais conta seus contos esperançosos
É apenas um espelho
Em que me vejo a observá-la
Esperando um único suspiro que se dirija a mim
Ou, na hipótese mais absurda,
Um beijo que se lance em minha direção.
Por nada poder, contento-me com o vento de teus sorrisos
Ou com a ressaca de tuas palavras
Que se vêm e se levam.
Ao brigar com meus olhos para que se fechem
Sinto-te e tenho-te
Fremes em meu ouvido e tremes sem sentido
Mas a noite acaba
A lua se vai
E já não lamento: sinto apenas
A dura realidade de um beijo
Que não pôde acontecer.

domingo, 22 de abril de 2007

Silêncio

Fomos nós
Que surgimos de onde só havia sonho e beleza
Mas não havia amargor...
Nosso amor foi sacramentado em poesia,
E das metáforas jamais nos livraremos.

Não passei por seus sonhos
De personagens previamente definidos
Fui apenas aquele que estava lá
Para sustentá-la caso alguém
Deixe de amá-la:
Você me fez coadjuvante.

Você me fez o vento que vem afagar-te
Caso sopre.
Me fez a gota que vem lamber-te
Caso chova.
Para você, sou o silêncio.

Mas, amor,
Não quero ser o silêncio
Faça-me barulho!

Quero ser o som
Que cante sempre suas canções
Que o vento vai levar
A seus ouvidos
Te amo, mas não posso tocar-te

Porque eu sou para você
Silêncio
E se você parar e pensar
— Pare e pense —

O silêncio, meu amor, jamais existirá.

Brasil

Nasceste
Mas não te vi.
Te vi grande
— Muito grande —
Mas não te reconheci.

Ausência

Confesso que fui fraco quando pude ter a força de um galante cavaleiro
E o céu fechou sua boca num segredo etéreo por saber que eu nada poderia te dar.
O eufemismo de tua presença me traz para cada vez mais perto de tua pele lisa
Mas o abismo que te isola do mundo não pode ser transposto pelos passos curtos dos homens
O universo me leva a teus braços e as circunstâncias te seqüestram
Com tua conivência, inocente ou incauta.
Mas eis que, calado, deixo-te ir por saber que não posso raptar-te em asas de serafins
Ou dar-te o amor mundano dos namorados que admiram beta e gama do cão maior.
Tenho a doçura ou a fraqueza de preferir que eu possa deitar minhas palavras em teus ouvidos
Sem tocar-te, a seguir só na estrada erma à procura de um olhar seu que seja profundo,
De uma palavra que saia do interior que eu não posso ver
De uma carícia que eu possa sentir.
Permanecerei calado para não acordar-te de teu sonho hermético
Pois já não importa, tu és minha porque eu te criei, amor, eu te inventei
Eu te possuo porque eu possuo o caos e a ordem, e ordeno
Que, por favor, deixes-me observá-la
Ainda que durmas e sonhes com olhares mais fortes que o meu.
Não quero o orvalho de teu olhar, que um dia irá se encontrar com a atmosfera
Que desvia a luz da estrela fria,
Quero ter o direito de ver-te sem que sumas
De pelo menos sentir-te sem que percebas...
Tenho a fraqueza de preferir o amor de seu desprezo involuntário
A calmaria de teus sorrisos inocentes
Ao vento que leve para longe o aroma de teus gestos.
Amor, sou fraco... confesso para mim mesmo
Que prefiro ver a luz bela e discreta de uma estrela que dance para mim
A acabar com seu amor mundano que observa estrelas
E correr o sério risco de acabar no meio de uma tempestade que caia de teu olhar
E esconda a estrela que eu invente para observar enamorado e sozinho, de longe...

Fou cœur

Ta presence est belle
Ta presence est trop belle
Ta presence est la plus belle du monde

Et elle me fait pleurer…

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Ordem Noturna

A lua é linda, mas está tão longe
Eu quero ser envolvido pelo fervor que guardas oculto em ti
Em ti não creio
Creio em tua beleza, creio em tua penumbra
Deixa-me esconder pelos lugares mais escuros de tua existência.
Quero afogar-me no rio em tua lúbrica penumbra
Quero arder e sentir as borbulhas de sua água que me queima.
Vá-te embora, rei das estrelas, teu trono foi roubado, e sou amante da rainha.
Esconderei minha embriaguez absurda sob sua sombra.
Juntos escreveremos um manifesto contra a luz.
A noite é linda, a noite é grandiosa
A noite é vasta.
Beijarei a boca de suas mil faces obscuras.
A noite é quieta, a noite é silenciosa, a noite é muda
Não acordará a lua que dorme o sonho de Álvares,
Não me amedrontará como a lua do sonho de Azevedo.
Noite de minhas vilanias, despe-te!
As nuvens se foram
A lua está dormindo.
De todas as tuas estrelas, quero aquela mais brilhante e mais escura,
Pois ela traga a fumaça de meu olhar.
Do meu pesar ignora a cela.
Não me contento com tuas aparições em sonho
Depois da música e depois do vinho,
Dançaremos um poema a duas mãos,
Dançaremos um poema a duas bocas,
Dançaremos um poema a dois corpos.
Não quero o falso amor dos relógios,
O tardar não existe.
Tardemos.
Confunde-me com tua sombra, noite,
É o que quero.
Não quero o falso amor dos relógios,
O tardar não existe.
Quero que tardemos
Agora.

À Pequena (II)

Pequena,
Observo-te de longe,
Mas creio que estou chegando perto.
Tua couraça não me deixa ler o que trazes contigo.
Tu, sob minha muralha de amores e lembranças,
Transcendeste o mundo fechado dos tolos.
Tua beleza escreve meus versos,
Deixei de ser um homem,
Agora sou um amante.
Se me permites, contarei todas as histórias
Da lua e das estrelas;
Permite-me.
Vem afagar meus anseios
Com teu amor que é maior que a curva do mundo,
E me engole.
És pequena, mas guardas em ti todo o meu olhar.
Amo tua pureza, quero roubá-la
Fujamos para onde não nos podem alcançar
Minha cama será nossa fortaleza.
Esqueça o romantismo, pense no amor.
Não pense no futuro, ele não existe.
Pense no amor.
Quero voar nas asas de tua tatuagem,
Quero que me graves em ti
Carrega-me.
O cheiro de teus cabelos, o gosto de teus sorrisos
Me invadem o sono
E vêm buscar meu pensamento quando estou acordado.
Invade-me o sono, pequena dama,
Deixa-me ir embora voar
Nas pequenas asas de tua borboleta.

À Pequena (I)

Pequena, não te vistas com as roupas de couraça
Que tanto conheço, veste-te com túnicas de anjo
E vem embalar meu sono com o canto fresco de tua beleza
Que ouço de longe...
Abre teu par de asas e voa, vem a mim;
Mas não chegues muito perto, antes transforma-te
Em vilã, antagonista do espetáculo de tuas luzes
Que piscam no ritmo de meus olhos
E do bater dos corações dos homens que te assistem passar
Espectadores e expectadores do sonho que é meu.
Deixa cair tuas penas, todas elas, não te escondas,
Colhe minha semente com toda sua sacra beleza profana;
Esquece o que é a paz
Não tenho calma, quero-te
Despida de tuas roupas de couraça,
Vem me chamar num sussurro.
Sem suas asas, somos tão parecidos
Tu me despiste de todas as opiniões inúteis
E agora, sou pleno.
Com teu corpo que dança qual em festa
Arranca de mim o suor pouco a pouco
Até a gota derradeira
Deixa-me invadi-la enquanto tu me invades o coração.
Recompensemo-nos com um beijo final.
Após o fim do espetáculo tu te vestirás de tuas asas
Te esconderás como se tivesses pudor;
Porém deixarás flutuante o olhar mais despido
Da vilã que não se fora por completo em ti.
Vai-te, voando, embora, e me deixas a acompanhá-la na mente,
No pensamento sonolento que logo se esvai em sonho.
Amo-te, meu sacro anjo profano, minha menina.
Pequena, não te vistas nunca com as roupas de couraça que tanto conheço.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Sentado, sinto que estou em outro mundo. Não estou neste mundo, estou longe. No meu mundo, é noite. No outro, há aqueles que falam e aqueles que ouvem, mas em meu mundo não existe falar. Só ouvir. Eu ouço a voz de sua beleza, que em algum lugar, na penumbra dos pensamentos escondidos, me observa. Sinto-a me observando, mas não sei onde está. O lápis comeu a curva do espaço e do tempo, não há nada que faça sentido além da cor de sua pele, de seu sorriso, de sua risada. Pede-me para escrever-lhe um poema, mas não é possível, você está no trono, e a poesia é uma plebéia. Você destronou a poesia. Mas, por algo que não posso explicar com palavras deste mundo comum a nós dois, a poesia está feliz. Satisfeita. Satisfação é a melhor coisa do mundo. Dos mundos. Não sei se me observa do trono, sua presença é uma mera solução de ar com beleza de molaridade meramente poética, inexistente. Não existe verdade na poesia. Faça-me sentir o sabor dos absurdos e o cheiro dos olhares que vêm da alma. Da janela dela, pelo menos. Não sei se há sentido na poesia, não sei se há sentido em você. Você é poesia. Vocês se juntaram num conúbio noturno desde o momento em que você me falou da primeira vez. Eu estou aqui, você está a umas ruas de distância, mas, nesse exato momento, estamos juntos. Estamos sempre juntos na penumbra dos pensamentos escondidos. Você é bela. A poesia é bela. Você é poesia. A poesia não sente ciúmes de você. A poesia se excita ao ouvir falar na sua carne, treme ao ouvir o canto que vem de algum lugar escondido, inutilizado, encantador. Quero ouvir o canto. Quero ouvir o musical. Quero assistir à ópera. Quero ouvir o grito. Quero um fim silencioso. Observo seu banho lá, no mar de algum lugar qualquer, um lugar nenhum qualquer. Seu corpo está encharcado de uma água que a torna incógnita. Não sei onde está. Revele-se. Cante de novo. Grite de novo. Silencie outra vez. De novo. De novo. De novo. Seduza a poesia. Seduza meu lápis. Seduza meus dedos. Não sei onde está, o lápis comeu a curva do espaço e do tempo. Não existe falar. Só ouvir. Quero um fim silencioso.

Seu

Ai, ai, como você consegue fazer isso comigo?
Eu que sou tão duro frio oco e sem sentido
Mas mantenho a semente latente lá no fundo
Que você rega e acaba que me carrega contigo!

Para quem ficou para trás

Busco na vida muitas glórias e medalhas.
Vitórias tais que satisfaçam minha alma.
Não me congratularão ou beijarão meu rosto.
Ninguém se importa com a cor da minha camisa.
A felicidade não é um troféu que pode ser ostentado.
Não é você que me fará feliz ou triste.
Aprendi comigo que eu devo fazer minha alegria.
A receita está cravada na parte doce do meu peito.
Sei que devo partir desta cidade, então até logo.
Devo apreciar a graça de todo beijo e o vento dos sorrisos.
Cada pôr-de-sol é um e morrerá no fim.
Contarei as luas cheias, tentarei lembrar de todas.
A pureza dos olhares será farol inconsumível.
A lembrança dos amores acalentará meu corpo.
Cada gosto, cada cheiro, cada calafrio é único.
Sei que me fará mais forte para ir ao fim.
Cada canto, cada folha, cada poema é íntimo.
É preciso amar a terra e sentir o sol abraçar.
Quero trocar olhares com a lua minguante.
Quero trocar palavras com algum desconhecido.
Talvez alguém deixe seu caminho para vir me acompanhar.
Um dia, ao ver-me cair, você irá se levantar.
Em outro, ao vê-la cair, eu irei levantá-la.
Não me esqueça só porque meu caminho é outro.
Juro que sinto bastante ao ver-me abandoná-la.
Lembre de mim com ternura, dos velhos tempos de escola.
Fez-me ter uma mente, muito obrigado por isso.
Busco mais alegria para por na prateleira.
De uma em uma vou traçando minha rota inconclusa.
Lembrarei com ternura do banho quente e do leite gelado.
Vocês estão sempre comigo, não importa onde eu esteja.
As canções do tempo criança não esquecerei jamais.
Minhas memórias em silêncio me farão maior.
Meu sonho em puro silêncio me fará mais forte.
Estou taciturno mas nutro grandes esperanças.

Chamado

Acordem-nos os grilos
Só se ouve o rumor do silêncio que nos abafa
Quero armar-me da palavra crua
E da poesia.
Acorde-nos o breu do século
E ressoe a palavra explodindo o canhão.
Deus, velhos mundos se despedaçaram
Homens, velhos sonhos se despetalaram.
Quero que ecoe o grito de minha caneta
Nas bocas daqueles que ainda falam,
Pois no grito de minha caneta sua fala ecoa.
Leve, vento, o manifesto
E, por favor, encha as caixas vazias.
Choremos ante essa raça de poucas verdades.
Quero que o porvir se faça,
Não quero que seja feito;
Nasça, seja ligação etérea,
Seja construção concreta,
Seja democracia,
Mas que pense e exista.
Sobretudo pense.
Sobretudo exista.
Brote uma folha na calçada da rua,
Isso basta para que a cidade floresça.
Brilhe uma estrela no escuro da noite,
E que ela mate a tarde nublada em sépia.
Quero cor.
Quero sentimento.
Estou fato do silêncio imbecil.
Abra a gaiola, fuja a palavra,
Seja exercida a liberdade sagrada.
Que as mãos teçam mais do que o rude trabalho.
Que o sexo possua olhar,
E que seja sereno.
Quero que os olhares falem.
Falem as coisas,
Falem as idéias,
Estou farto do silêncio imbecil.
Quero as vozes que gritam, umas sobre outras,
Em minha cabeça.
Um segredo que lhe conto:
Sua cabeça é um mundo
E navegue em pensamento.
Morreram as canetas
Morreram as gargantas.
As línguas já tiveram tempo demais para descansar.
Que em todos os portos desembarquem caixas cheias.
Quero que pense, quero que exista,
Quero que fale.
Lua, brilhe linda no céu.
Meu sonho está se despetalando
Entretanto, até a última pétala,
Nunca deixará de ser meu sonho.

Poema para a mulher amada

Fluidas florestas de cravo e canela
Fluem sobre sua cabeça, beijando
Docemente a leveza fresca da brisa.
Seus lábios são portas que levam ao sonho
E à insônia mais doce que se pode ter;
Feliz, felicíssimo aquele que tiver a chave.

Seu corpo é estátua grega de deusa
Em imponência; mas possui a singeleza marota
E a graça da mais bela mulata brasileira.
Seu perfume — ah! doce e único perfume —
Me faz retornar a louco — e talvez efêmero —
Momento único que talvez não tenha acabado.

Memórias... De saudade, de espera, de encontro,
De afagos, de carinho, de frêmitos tão sutis,
Dignos do bico singelo e grandioso dos colibris.
Não é morena nem loura: é linda
Não é magérrima ou gorda: é perfeita,
E tal perfeição brinca com meus pensamentos.

Rouba minha concentração, acende chama
Que arde sem se ver; me faz paixão, só
Carrego-a comigo sempre: isto, que seja inifinito enquanto dure.

O Poeta

“Poetry can’t be written with a silly smile and a hearty laugh
Poetry needs to be felt, to be witnessed, and to be suffered.”
(Jan Havlik)


Ser poeta é muito mais que ser um cantador
De belas palavras e belos versos, é mais que brincar
Com as letras, é mais que criticar os problemas do mundo com metáforas ensaiadas.
Ser poeta é ser infinitamente grande, ser deixar de ser tão grande quanto qualquer um,
É deixar o coração ser ditador, é dar seu sangue pelas palavras que surgem flutuantes sobre uma folha de papel.
Ser poeta é descrever um mundo invisível a qualquer outra pessoa, e contar suas belezas e tristezas com o suor de sua carne.
Ser poeta é andar de mãos dadas com a poesia, e amá-la, e ser dela, e dela só,
Da poesia, da bela e sedutora poesia, da poesia de poucos amantes, da poesia castamente lúbrica, Da poesia imprecisa, da poesia que ri e que chora, mas sobretudo da poesia que sonha.
Ser poeta é também sonhar.
Ser poeta é voar léguas quando a noite chega, tranqüila
É partir em louca jornada, de mãos vazias, em busca da palavra que traduz perfeitamente o âmago do seu pensamento.
É construir com seus braços nus imensa morada, perfeita morada, para seus inexplicáveis sentimentos,
E habitá-la com revoadas de palavras voadoras, que findam pousando eternas.
Ser poeta é testemunhar o apoteótico nascimento de um ser que nasceu por si só,
E no entanto dele ser ao mesmo tempo pai, mãe e desconhecido,
Pois a poesia do nada surge na vida de seu criador;
A poesia nasce de um estalo, ou é aos poucos sedimentada
E espera paciente o momento do seu sacramento, em que jura ser eterna, ainda que não saia do seu canto esquecido e anônimo.
O poeta deve conhecer a poesia, ouvir o que ela tem a contar e cantar, respeitá-la.
Ser poeta é escandir a vida em incontáveis sílabas poéticas
Em métrica inconstante e incomensurável de sonhos e realidade.
Ser poeta é dizer o indizível
Ser poeta é descrever o indescritível
Ser poeta é consumar o inconsumável.
Ser poeta é fazer de palavras algo mais do que sonhos e idéias
Ser poeta é transformar em verso e estrofe o mistério louco que todos conhecem: viver.

A Ilusão do Novo

Foi-se o traje, foi-se a ceia, foi-se a dança
Nada sobrou da lascívia e da euforia
Copos no chão, pés descalços
Deixemos o novo sol acordar-nos do sonho
Acabou-se o espetáculo que encenávamos,
As palmas foram breves.
Apaguem as luzes,
Voltemos à banalidade cruel
Caia a máscara, o falso você
Em que se empenhou para ostentar.
Vão embora sob o olhar do novo sol cauteloso
Voltem, por favor, a viver.
Dancem o balé banal
Comam do pão banal
Celebrem quando foi preciso ou conveniente
Lutem banais lutas para serem felizes.
Que é o efêmero desta noite?
Desta noite, que é tão igual às outras noites
Mas que se vestiu, se maquilou
Para contar meias-verdades pelas ruas e avenidas
E pelos passeios públicos
E pelas orlas marítimas
E pelas casas de campo
E pelas festas e banquetes por onde há luzes de néon
E pelo amor dos que preferem a privacidade
E pelo sono dos viciados em banalidade
Noite de sete pulos nas ondas
Noite de sete caroços de romã
O branco é a paz, amarelo, riqueza
Verde, esperança, vermelho, amor,
Mas cores são apenas cores!
Que dancem as filas pelas boates de arco-íris
De cores-sentimento, cores-aspiração que explodem de embriaguez
Gente rindo sua esperança,
Gritando sua euforia,
Filoctetes acertando o olho do Páris da banalidade.
Junto-me ao turbilhão de loucos bailarinos
E juntos escrevemos uma mensagem ao banal
Não somos banais
Nossa festa não é banal
A travessia é uma meia-verdade verdadeira.
Meias-verdades são apenas ilusão.

O Último Adeus

Vejo a vida por uma janela
Entre quatro molduras
Ela freme, chama
Mas há um vácuo dentro de minha cabeça
Eu já não posso pensar ou ouvir.
Talvez uma palavra lançada a esmo
Por algum alguém qualquer
Bateu em teu rosto — e doeu
Perdão, mas é tarde.
Talvez não nasça sequer uma cã no tempo
Até que tu sumas do olhar estático de minha janela.
Juro que é triste não mais ver-te, inerte
A teu canto, abandonado por muitos
Esquecido por nenhum.
Lembrarei de ti a cada cerca saltada.
Sempre pensarei em ti quando estiver longe.
Lá eu verei a vida por uma outra janela.
Espero que penses em mim
Sempre que eu pensar em ti.
Pelo menos sempre que eu pensar em ti.
Meus olhos estão sonolentos
Meus lábios então taciturnos
Mas vou-me embora.
Atenderei o chamado da vida.
Que Deus me leve para o lado menos soturno.
Permite-me, sem ressentimento,
Dizer um último e atordoado
Adeus.

Pedido

Preciso que você diga as palavras que não posso dizer
E sob os pingos de chuva que caem da tempestade
Caminhemos juntos com o silêncio da vitória.
Que você tenha o olhar que não posso arrancar
Que teça o toque profundo sob a lua
Que outrora lhe dediquei.
Eu poderia falar-lhe do sonho, do vazio e da vitória
Mas prefiro a delicadeza da música que se esvai de um olhar.
Poderia falar-lhe daquela nuvem que esconde a lua
Afaste-a, dê-me seus lábios, minha dama,
E comecemos.
Permita que meus dedos e lábios sejam testemunhas do profundo sentimento
E que nossos corpos vitoriosos ocupem o mesmo lugar
No espaço eternamente enamorado.

Encontro Nocturno

Creo en el poder del brillo débil de las palabras
Venidas de todos los sitios, todos los vales y todos los ríos
Creo en la poesía de los más profundos mares.
Yo sé que tú no sabes que, a veces,
Salimos juntos bajo la luna vieja
Y cantamos las canciones antiguas
De viejos héroes del pasado.
Cantando, nosotros caminamos a buscar las palabras que nos llaman
De un lugar que no es conocido por los hombres.
Toco tus manos, y puedo besar tus labios
Pero no lo hago, nuestra unión aún no puede ser bordada.
Juntos, tocamos el pelo de las palabras con la dulzura de una madre
La luna nos observa con la gracia de una abuela.
Nuestras manos capturan la palabra chica, juntas
Y ella duerme el sueño suave y profundo de la poesía,
Y canta para tus oídos sordos.
Te amo, pero no puedo tocarte.
Estoy a tres palabras de ti y aún así estoy tan lejos…
La poesía es mi salvación, mi redención y mi tormenta.
Te amo, pero no puedo tocarte.
Se yo tuviera el amor de los perros
Y la poesía de los maestres,
Mi mundo estaría completo.

terça-feira, 10 de abril de 2007

Para minha pequena lua

Lua,
Derrama teu corpo no leito aberto
E canta para meus olhos
És tão pequena
Mas exalas de ti poesia e sonho.
Diante de ti a cidade é nada
Tua luz engoliu toda a beleza.
Ao ver-te, sou inteiramente teu.
Não te vás, não te movas
Estamos sós, nós dois, neste quarto
Toma meu olhar como convite.
És tão errante, minha amante,
Fica comigo, imóvel
Deixa tua beleza traduzir-se em meu êxtase.
Estás tão longe, aproxima-te
Quero tocá-la com os lábios
E navegar contigo os mares a que fores.
Dança para mim, sozinho e apaixonado,
O seu balé de gestos e poucas palavras.
Despe-te de tuas nuvens e sê minha,
Nua e sozinha
Deixa-me sentir o cheiro de tuas luzes
E o gosto do teu amor modestamente exibido
Confesso-te que és apaixonante.
Amo-te, lua, e peço-te que sejas de todo minha
E cale minhas palavras com o gosto de teu beijo.

Poema de Impotência

Se eu pudesse, eu mataria todos os adeuses
Eu odeio os adeuses, adeuses são ridículos
Ridículos e inevitáveis como a morte.

Imortais como a morte.
Efêmeros como a morte,
Infindáveis como a morte.

Adeuses são a morte.
Se eu pudesse, os mataria todos.

Se eu pudesse.

Transbordamento de Carícias

Sós
Nós
Como nós
Cegos nós
Como o amor.
Sós
Nós
É só.