quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Depois da epifania

O amor que me cala
é o que me entristece
porque outro fenece
na sua morte de fala
na sua morte de nada
na sua morte de amores
de bem longe de mim
mas o amor que me cala
é o amor que me alegra
porque surge na pedra
como audaciosa flor
ele vem de repente
com mirada contente
sem procura ou espera
ainda assim, o amor
que me surge do nada
nada absoluto
é um amor que não pode
me fazer gargalhar
me fazer escrever
me fazer suspirar,
soluçar, já não posso
nem chorar, nem morrer
todo dia um pouco
nem amar como um louco
porque amor, amor mesmo
tive um, um apenas
e acabou sem mais nada
nem saudade calada
nem tristeza velada
nem vontade de volta
esse maior de todos
esse amor dos amores
essa monstruosidade
essa pura inverdade
essa crua imensidade
foi-se embora sem volta
e agora estou só
vendo um amor que me surge
repentino e feliz
na sua imensa tristeza
de não poder ser grande
de estar sempre à sombra.
Mas que seja bonito.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Hai-cai pulsante para um amor errante

Se eu te acho agora
Eu te guardo aqui do lado
E congelo a hora.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

A Terra Baldia (The Waste Land, T.S. Eliot), Cantos I e II

Nam Sibyllam quidem Cumis ego ipse oculis meis vidi in ampulla pendere, et com illi pueri dicerent: Síbylla tí theleis; respondebat illa: arothaneîn thélo.

Para Ezra Pound
il miglior fabbro

I. O ENTERRO DOS MORTOS

ABRIL é o mês mais cruel, criando
Lilases da terra morta, mesclando
Memória e desejo, misturando
Raízes toscas com chuva primaveril.
O inverno nos aqueceu, cobrindo
Terra em neve esquecida, nutrindo
Uma pequena vida com legumes secos.
O verão nos surpeendeu, vindo sobre o Starnbergersee
Com um banho de chuva; nós paramos na colunata,
E seguimos à luz do sol, ao Hofgarten,
E tomamos café, e conversamos por uma hora.
Bin gar keine Russin, stamm' aus Litauen, echt deutsch.
E quando éramos crianças, na casa do arquiduque,
Meu primo, ele me levou num trenó,
E eu estava apavorada. Ele disse: Marie,
Marie, segure firme. E descemos.
Nas montanhas, lá você se sente livre.
Eu leio, muito da noite, e rumo ao sul no inverno.

Quais são as raízes que agarram, que galhos crescem
Desse lixo pedregoso? Filho do homem,
não pode dizer, ou adivinhar, pois só conhece
uma pilha de imagens caídas, onde o sol bate,
E a árvore morta não dá abrigo, e a cigarra não dá alívio,
E na pedra seca não há rumor de água. Apenas
Há uma sombra sob esta pedra vermelha,
(Venha para baixo da sombra dessa pedra vermelha),
E eu lhe mostrarei algo diferente de tudo
Sua sombra pela manhã andando atrás de você
Ou sua sombra ao fim da tarde crescendo para encontrá-lo;
Mostrar-lhe-ei medo num punhado de pó.
Frisch weht der Wind
Der Heimat zu.
Mein Irisch Kind,
Wo weilest du?

'Você me deu os jacintos há um ano atrás;
'Me chamaram de menina do jacinto.'
— Ainda assim nós voltamos, tarde, do jardim dos Jacintos,
Seus braços cheios, e seus cabelos molhados, eu não podia
Falar, e meus olhos falharam, eu não estava
Nem viva nem morta, e eu nada sabia,
Olhando no coração da luz, o silêncio.
Od' und leer das Meer.

Madame Sostris, famosa clarividente,
Teve um forte resfriado. Mesmo assim
É conhecida como a mulher mais sábia na Europa,
Com um baralho torto. Ei-la, disse ela,
A sua carta, o afogado Marinheiro Fenício,
(Essas são pérolas que eram seus olhos. Veja!)
Aqui está Beladona, a Dama das Rochas,
A dama dos problemas.
Eis o homem das três tábuas, e eis a Roda,
E eis o mercador caolho, e esta carta,
Que está em branco, é algo que ele carrega nas costas,
Que estou proibida de ver. Não encontro
O Homem Enforcado. Tema a morte pela água.
Vejo multidões, andando em círculos.
Obrigada. Se vir a Sra. Equitone,
Diga-lhe que eu mesma trago o horóscopo:
Deve-se ter cuidado esses dias.

Cidade Irreal,
Sob a névoa marrom de uma alvorada de inverno,
Uma multidão fluiu sobre a Ponte de Londres, tanta gente,
Não pensei que a morte tivesse desfeito tantos.
Suspiros, curtos e infrequentes, foram exalados,
E cada homem fixou seus olhos ante seus pés.
A multidão escorreu ladeira acima e desceu a Rua do Rei Guilherme,
Para onde Santa Maria Woolnoth guardava as horas
Com o baque surdo do último badalar das nove.
Lá avistei um conhecido, e o parei, gritando 'Stetson!
'Você que foi comigo nos navios em Mylae!
'Aquele cadáver que você plantou ano passado em seu jardim,
'Começou a brotar? Vai florecer esse ano?
'Ou o gelo inesperado perturbou seu sono?
'Oh mantenha o Cão longe então, ele é amigo para o homem.
'Ou com suas unhas ele vai cavar de novo!
'Você! hypocrite lecteur!—mon semblable,—mon frère!'

II. UM JOGO DE XADREZ

A CADEIRA em que ela sentou, como um trono polido,
Brilhou sobre o mármore, onde o copo
Segurado por padrões forjados com vinhas frutadas
De cujas frestas observava um Cupidon dourado
(Um outro escondia os olhos sob a asa)
As chamas redobradas do candelabro de sete hastes
Refletindo a luz sobre a mesa enquanto
O brilho de suas joias ergueram-se para encontrá-lo,
De estojos de cetim derramadas em rica profusão;
Em frascos de marfim e vidro colorido
Destampados, mantendo à espreita seus estranhos perfumes sintéticos,
Unguento, pó, ou líquido — incomodado, confuso
E com o sentido afogado em odores; misturados pelo ar
Que soprava fresco da janela, estes ascenderam
Aumentando as chamas prolongadas das velas,
Lançaram sua fumaça sobre o verniz,
Misturando-se aos motivos do teto adornado.
Enorme bosque marinho alimentado a cobre
Queimado verde e laranja, emoldurado pela pedra colorida,
Em cuja luz triste um golfinho talhado nadava.
Acima do manto antigo era exibido
Como se uma janela se abrisse à cena silvestre
A mudança de Philomel, pelo rei bárbaro
Tão rudemente forçada; ainda assim lá o colibri
Enchei todo o deserto com voz inviolável
E ainda assim chorou, e ainda assim a voz persegue,
'Jug Jug' para maus ouvidos.
E outros murchos tocos de tempo
Foram ditos pelas paredes; formas arregaladas
Saíram, inclinando-se, acalmando o cômodo fechado.
Passos soaram na escada.
Sob a liz do fogo, sob a escova, seu cabelo
Espalhados em pontas de fogo
Brilhou em palavras, para depois aquietar-se selvagemente.

'Meus mervos estão ruins hoje à noite. Sim, ruins, Fique comigo.
'Fique comigo. Por que nunca fala? Fale.
'Em que está pensando? Pensando em quê? Em quê?
'Eu nunca sei no que está pensando. Pense.'

Creio que estamos no beco dos ratos
Onde os homens mortos perderam seus ossos.

'Que barulho é esse?'
O vento sob a porta.
'Que barulho é esse agora? O que o vento está fazendo?
Nada de novo nada.
'Você
'Não sabe de nada? Não vê nada? Não lembra
'De nada?'
Lembro
Essas são pérolas que eram seus olhos.
'Você está vivo, ou não? Não tem nada em sua cabeça?'
Mas
Ó Ó Ó Ó esse Trapo Sheakesperiano —
É tão elegante
Tão inteligente
'Que fazer agora? Que fazer?'
'Devo correr como sou, e andar na rua
'Com meu cabelo para baixo, então. Que fazer amanhã?
'Que fazer sempre?'
A água quente às dez.
E se chover, um carro fechado às quatro.
E vamos jogar um jogo de xadrez,
Apertando olhos sem pálpebra e esperando por uma batida na porta.

Quando o marido de Lil' foi reformado, eu disse —
Não atenuei minhas palavras, disse para ela eu mesmo,
CORRA POR FAVOR É HORA
Agora que Albert está voltando, faça-se um pouco mais esperta
Ele quererá saber o que você fez com o dinheiro que ele deu
Para te dar alguns dentes. Ele deu, eu estava lá.
Você não tem nenhum, Lil, e consiga uma dentadura,
Ele disse, eu juro, não aguento olhar para você.
E não mais posso eu, eu disse, pensar no pobre Albert,
Ele está no exército há quatro anos, ele quer se divertir,
E se não der a ele, há outras que o farão, eu disse.
Oh tem sim, ela disse. Alguma coisa assim, eu disse.
Depois saberei a quem agradecer, ela disse, e me deu um olhar grave.
CORRA POR FAVOR É HORA
Se não gostar pode jogar fora, eu disse.
Outros podem pegar e escolher se você não.
Mas se Albert fugir, não será por falta de aviso.
Você deveris se envergonhar, eu disse, de parecer tão antiga.
(E ela só tem tinta e um.)
Não posso evitar, ela disse, fazendo uma cara triste,
São essas pílulas que tomo, para por para fora, ela disse.
(Ela já teve cinco, e quase morreu do jovem George.)
O químico disse que ficaria tudo bem, mas nunca fui a mesma.
Você é mesmo uma tola, eu disse.
Bem, se Albert não a deixará em paz, aí está, eu disse,
Por que se casa se não quer filhos?
CORRA POR FAVOR É HORA
Bem, naquele domingo Albert estava em casa, eles tinham toucinho quente,
E eles me convidaram para jantar, para ver a beleza dele quante —
CORRA POR FAVOR É HORA
CORRA POR FAVOR É HORA
Boa noite Bill. Boa noite Lou. Boa noite May. Boa noite
Ta ta. Boa noite. Boa noite.
Boa noite, senhoras, boa noite, doces senhoras, boa noite, boa noite.

(T.S. Eliot. Tradução de Pedro Guimarães)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Em casa

Estou completamente só.
Não há ninguém comigo.
Memórias me rondam.
Nada faz mais sentido.

Nada mais está em sua ordem natural.
Estou muito, muito longe
de casa.
Eu não sei onde fica minha casa
e minha casa nunca me viu.
Algum lugar aí
é minha casa.
Se me perguntarem onde é minha casa,
não saberei.

Eu
FUGI
de casa.

Fugi do meu refúgio.
Meu mundo, meu universo.
Fugi. Deixei-o pra trás.
Para nunca mais.

Estou longe, muito longe,
muito, muito longe
de casa.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

2008 foi um ano ruim

Oito foi um ano ruim. Não troxe consigo a alegria de seis ou a grandiosidade de sete, ou mesmo a epifania de cinco. Oito foi um ano sóbrio, triste e de cores esmaecidas e um tanto opacas; um ano cinzento, diria. Lembro-me de seis, aquele ano alegre e vívido, um ano que até a data de hoje me traz de súbito uma grande risada quando é lembrado. Ou ainda de sete, um ano de grande jornada e grande conquista e grande luta também. Oito foi sem-graça como quatro, como noventa e sete, e alguns outros noventas da minha infância de século passado. Em oito nada de grande aconteceu. As coisas grandes de sete e de seis, e mesmo de cinco, pareceram perder sua grandeza e tornaram-se apequenadas, até que sumiram: oito terminou com uma grande sensação de vazio. Em oito acabou a busca da grande meta, a concretização dos grandes planos, em oito foi revogada a lei que eu tinha escrito com meu sangue. De tanto que queria antes ir embora para o mundo, fiquei. As ideias que tinha antes tão veementes viraram cinza jogada ao vento das circunstâncias. Abandonei meu sonho maior, a alma mater sonhada sumiu quando despertei assustado na periferia da cidade natal. Uma verdade triste e deliberada que existiu por causa das porcarias do amor. De um grande amor. O maior de todos. O amor insuperável. Por causa dele abandonei sonhos, esqueci objetivos de vida, escolhi o caminho vicioso e por causa dele entristeci. E por causa da tristeza emudeci, e por causa da mudez, incomodei, e por causa do incômodo, feri, e por causa da ferida matei. Matei a mim primeiro, e ela, Julieta, matou-se em seguida. Morreu o maior de todos os amores, o amor que traziam cinco, seis e sete, e que oito matou. Extinguiu-se também o maior de todos os sonhos, o sonho que traziam cinco, seis e sete, e que oito destruiu. Cinco criou, seis e sete mantiveram, oito destruiu. Oito foi o ano destruidor. Oito terminou sem perspectiva. Sem futuro. Sem nada. Que nove seja o início de uma nova jornada, uma jornada que se etenize em algo grandioso, lindo e perfeito. Que nove seja a ponte fantástica entre o caos de oito e um porvir de ordem. A esperança é grande para a década de dez, que se aproxima.