sábado, 11 de outubro de 2008

A mentira da poesia

Em poesia, advirto:
mentem as palavras.

A poesia é uma mãe que explica ao filho
de onde vêm os bebês.
A poesia é uma avó
que diz à mãe que a criança comeu tudo.
A poesia é um professor de sociologia
ensinando sobre Marx.

Em poesia, confesso,
mentem as palavras.

Mas são todas mentiras
muito boazinhas.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Prelúdio

Pele branca
cara pálida
maquiagem
delineando
em bem negro o
par de olhos
de palavras
que num átimo
mais que ótimo
surgiu rápido
(foi assim).

Anca magra
coxa rasa
sexo virgem
na volúpia
da primeira
noite lúbrica
maquiagem
tinta preta
tatuagem
sobre o branco
sem penugem
sem vertigem
sem coragem
cem vontades
escondidas
sob a cara
parte puta
parte cara
do seu nome
poesia.

Epistemologia do poema

Um homem tem um sério compromisso
com seus fracos barulhos.
É preciso que haja ouvido de coruja,
é preciso
que se cale o rádio e acenda a lua
que o respirar seja mais alto que o som chato da rua
para que se possa bem pensar.

Um poeta, um jazzista, uma puta
uma jovem silhueta fatigada pela luta
e uma leve gravidade
também têm um bom lugar.
(Mas cuidado, toda puta
deve chamar-se Amélie
e viver no Moulin Rouge
— ou outro bordel de Paris.)
Uma caneta tinteiro, um isqueiro,
um cinzeiro; pra completar,
um moleskine em branco
e paixões a dizer chega
mil! duas mil!
para anotar.

Poética

Quando o campo se torna cidade
Quando a calma vira tempestade
Quando o amor se torna amizade
Quando a mágica vira verdade
Quando leio os versos de um Andrade
Ou as linhas de um marquês de Sade
Quando os olhos encontram a beldade
E o peito o peso da saudade
Se as mulheres estão sem vontade
E os velhos sem virilidade
Quando um homem perde a sanidade
E um outro se faz de covarde
Quando um jovem completa a idade
Quando um rei perde a majestade
Quando um rico finge caridade
Na orgânica solidariedade

Mão palavra poema passagem
E a trova vira trovoada.

sábado, 4 de outubro de 2008

O dia seguinte

No dia seguinte, tudo mudou.
A maré, que era de sizígia
parou de encher, e não secou.
A lua, que se punha no oeste
se escondeu, e o sol, que vinha lento
apareceu pacato no horizonte.

Foi aí que tudo parou.
As tempestades e seus raios
se calaram, os maremotos
se acalmaram, os furacões
viraram brisa e o sono dos homens,
que era agitado e frágil,
caiu pesado sobre as pálpebras cansadas.

As prostitutas na esquina
viraram virgens,
e os ladrões encapuzados,
de palhaços,
alegraram a madrugada
e acordaram com apitos
todos os jovens daquele país.

O governo caiu em si
e promulgou sorrisos no diário oficial.
Os colibris, nas árvores,
cantaram o hino nacional.

No dia seguinte tudo mudou.
A lua deixou só um rastro de memória,
e os olhos dos homens se voltaram para a manhã
que o sol inundava de um amarelo encorajador.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Mote enfadado

No meio da primavera
entre borboletas e flores
e perfumes e sabores
uma flor murchou.