quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Apólogo

A agulha e o alfinete
apesar de tudo
se amavam.

A agulha sempre colocando coisas na cabeça
e o alfinete com sua enorme cabeça cheia de idéias
eles se amavam
da maneira deles.

Ela da maneira dela
ele da maneira dele
iam felizes
costurando seu carinho em pontos
muito, mas muito apertadinhos e juntinhos.

Mas ela, apesar de ser agulha,
vivia dando alfinetadas...

Hai-cai urbano para um amor desumano

Eu não sei que sinto
Você mente que nem sente
Que eu amo e não minto!

Quadratura

água quente e silêncio.
quente coração.
quente.
barulho de coração.
silêncio de coração.
barulho de coração.

lua minguante.
quadratura.
dura! dura! dura! dura! dura!

água quente e salgada.
olhos de maré.
démarré d'ici.
démarré de là-bas.
démarré du monde.
maré de quadratura.
dura! dura! dura! dura! dura!

a saudade do lusófilo.
a fé do ímpio.
a voz do surdo.
a juventude do velho.
a maré de quadratura.
dura! dura! dura! dura! dura!

a palavra.
a voz dela.
a voz dele.
ele.
ela na cama.
o cânone da língua.
o lençol puxado.
o televisor ligado.
o filme da madrugada.
a lua minguante.
quase nova de tão velha.
e a maré de quadratura.
dura! dura! dura! dura! dura!

vampiros e tempestades.
um príncipe desencantado.
uma donzela deflorada.
um cavalo batizado.
um bobo.
quadratura.

quem atura
a quadratura?

obscura
pura
a cura

dura! dura! dura! dura! dura!

À Pequena (III)

há uma luzinha no céu
e eu não sei o que é
será que é um balão
um anjo ou uma mulher?

há uma luzinha no céu
e eu não sei o que é
será um resto de lua
será que é um bem me quer?

há uma luzinha no céu
e eu não sei o que é
será Ismalia sonhando
será a pequena mulher?

há uma luzinha no céu
há uma luzinha no céu
há uma luzinha no céu
que eu não posso alcançar.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Elegia a mim mesmo

Nesta noite escura e tempestuosa
Em que os relâmpagos fotografam meu rosto cansado
Confesso, com um olhar taciturno e grave,
Que estou muito doente.
Minhas mãos acariciam o rosto mutante da brisa
E meus pés perdem o rumo que deixaram
Os grandes que vieram antes de mim.
Assisto calado e paralítico à minha
Estúpida, ridícula e miserável morte.
Sou uma galante frustração.
E é por isso, creio, que nesta noite escura e tempestuosa
Me despeço da minha realidade consorte.
Você que acompanha meus passos,
Para você deixarei um carro.
Para você que me diz que não vale a chance
Deixo um talvez esperado beijo.
Para você que me beijou, você que me abraçou
Deixo um olhar que fala à alma.
Talvez não me compreenda,
Você sempre morre antes de mim.
Ainda assim, olhe, mas olhe profundamente:
Os olhos secos de lágrimas e o coração que já não bate
São a dilacerada medida da minha doença.

Não estou doente por querê-la
Nem conheço sintoma algum dessa minha
Saúde bêbada e delirante do após orgasmo.
A tempestade fala ao meu ouvido de mártir
Sobre seu sono indiferente a metros deste papel.
Sonha, amante adormecida,
E não deixes que te arranquem a máscara
Cruel e capitolina da tua beleza.
Você é o mal do século
De quem me lê, você é uma doença
Para minhas mãos que escrevem miudezas
De poeta comum cheio de desilusões que iludem
Estou numa queda decrépita rumo ao nada
Estou caindo no campo desleal das metáforas
Estou morrendo.
Pintem um quadro da minha morte!
Toquem um velho samba triste!
Pequena, escreva meu epitáfio!
Abram um museu com meus papéis nauseabundos
Minhas palavras decompostas em pó,
Cheirem-nas pelos becos putrefatos!
Comam-nas pelos terrenos baldios da decadência
Hipócrita dos jovens do Jardins!
Um poema como soluço
Uma palavra lacrimal
O piscar da tempestade lá fora
E a morte premeditada de um poeta
Que jamais nasceu.

Se outra vez dirigir-me esse olhar
E esse sorriso número três
Sugue minha alma
Mas pela boca.
Mate-me assim que ler esta despedida
Entre nós há uma rocha velha
Fustigada pela maldição da beleza.
É lá que me matará.
Arranque meu coração com delicadeza singular.

*

Esqueça tudo.
Olhe meus olhos mais uma vez.
Sinta minhas mãos criminosas
E, em seguida, esqueça-as.
Tire seu coturno e pise a terra.
Joque fora a máscara
Me beije como se fosse me matar.
No clímax dessa dança
Penetre seu punhal em meu peito
E me veja agonizar.
Mate-me, assassina.
Mate-me rápido.

Estou muito doente.
Não quero cura.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Melancolia do dia de branco

Já nesta linda e enluarada noite,
eu troquei o verso e a estrofe

por uma melancolia daquelas que não deixam a gente se levantar nunca mais na vida até amanhã de manhã bem cedinho com café quentinho e pão acabado de sair da padaria trazido pela loira mais bonita do quarteirão.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Balada do Dia Novo ou do Fim da Novela

Sou moreno e tenho olhos escuros
Como a luz da noite já extirpada.
Tenho olhos escuros e fundos
Para ver melhor o fundo escuro.
Eis que não enxergo na distância
E olho próximo à minha mão ferida
Querendo o mundo louco, acho o nada
Querendo a terra toda, acho a lua.

Mas meus olhos fundos encontraram
No satélite o deslumbramento
No momento a chuva fez-se manto
E a canção fez-se cheiro atrativo.
De olhá-la beijo enquanto durmo
De querê-la transo enquanto sonho
E em transe ponho-me tristonho
E escureço no semblante escuro.

Raia o dia que engole a lua
Que é mulher de sensual pegada
Que se deixa branca como espuma
E que invade qual apaixonada.
Mas o dia ilumina a mesa
E a cadeira aparece vermelha
Meu cabelo preso fica à noite
Que é escura como meu cabelo.

Sou moreno e tenho olhos escuros
Como a cor da terra grave e crua
Mundo é cru e sem deslumbramento
E meu olho é escuro, fundo e feio.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

A nudez da lua

O sorriso que carrego em meu rosto
se esvai tênue e impuro quando estou sozinha.
Minha pele branca é lar
das tatuagens que gravaram na minha carne silenciosa.
Meus pensamentos abrem seus olhos vermelhos
e, na escuridão, derramam minha maquiagem
enegrecendo minhas faces.

O mundo deseja me matar
e, querendo proteger-me, fico nua.
Não há ainda leite onde um coração sofrido
canta pretéritos esquecidos e imperfeitos.
Não há mais pureza onde um amor insano
despejou sua ânsia desvalida.
Resta apenas meu olhar,
que maqueio e escondo dos seus olhos
me querendo mulher.

Suas mãos me erguem longas e frias
e me tocam inescupulosas
como brisa.
Seu falar se cala abruptamente
e me toca delicado
qual sizígia.

Mas seu amor de ternura me deu a ordem
de orientar as marés.
Então me dispo cheia
de amor reprimido
ou novamente me visto
de silêncio escuro
seu amor me convoca
mas não quero ir.

Quero que o mundo me deixe só
pois não sei para onde ir.
Querendo proteger-me, fico nua
pudica como namoro escondido.

Em meio às marés
salgadas e mortas
seu sorriso é, para mim,
terra firme onde vou me deitar.
E querendo proteger-me, fico nua.

Porém,
quando um velejador de longe vem
recebo-o materna e grave
amorosa e suave
pois oriento as marés
e sou marina que guarda
os barcos que vêm de lá.

*

Escrevendo a metonímia de um grande não
fico nua querendo me proteger.
Seu amor escrito em palavra
despe meu olhar da maquiagem mentirosa
nessa sizígia de pranto salgado.
Mas não posso me proteger
as tatuagens que gravaram
na minha carne silenciosa
são vestimenta que, fatalmente,
não posso tirar para banhar-me nua
no mar doce das suas palavras.

Para você que vem agora

Seu olhar
me cegou
ao mundo
lá fora.

Você é
para mim
um bom
agora.

Mas se não
se cumprir
eu vou
embora,

Tenho pernas
ando passos
no mundo
afora

Seu olhar
penetrou
matou
sem demora.