quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Pierrot

É nesses momentos de absoluta ternura
que olho para minha existência deslocada
e busco respostas para as perguntas
enviadas dos céus.
É nesses inícios, misteriosos,
que entrevejo finais infelizes
e desejo vidas inteiras, filhos e netos,
lindas impossibilidades.
E você, que sempre se revelou como fotografia,
você sem voz, sem calor e sem movimento,
que subsistia em uma distância inalcançável
e me dizia, em telepáticos olhares,
qual era a razão da espera.
Minha rocha amorfa está prestes a tornar-se estátua
e a estátua se erguerá por sua força
e andará por seus pés
antes do fim — não sei aonde.
E seu perfume, que meramente imagino,
me convida arrebatador, e seus cabelos,
cuja textura ignoro, me são ímpeto ao tato,
e seus lábios, secos ou úmidos, sussuram
meu nome comprido que não compreendo.

Quem é você?

sábado, 23 de outubro de 2010

Canto para o amigo em desespero

É certo, amigo meu
que as coisas, sim, mudaram
que os risos acalmaram
que o rumo se perdeu
que tantas que me amaram
num cômodo choraram
pelo que padeceu
amigo, não se iluda
que tudo um dia muda
e o que se prometeu
se torna sem sentido
tudo que era sabido
se esvai no saber seu

É certo, a nossa vida
não mais é uma jornada
por certo leva a nada
pois não vejo saída
primeiras namoradas
mulheres mais que amadas
têm sempre a despedida
um dia, meu amigo
vou encontrar abrigo
de todas as feridas
enquanto não encontro
vou caminhando tonto
por ruas e avenidas

Compreenda, amigo meu
que nesta madrugada
há putas desvairadas
e pobres macabeus
batendo em retirada
não matando a charada
que o mundo então nos deu
amigo, compreenda
que já gozou das prendas
da vida quem morreu
'ntão viva bem, e tanto
que espantará o pranto
esse vão canto meu

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

No texto eu escarrei setenta dúzias de brocardos

O sol estava fraco
por pouco era dia


O chão estava frio por causa do ar-condicionado.


Tomei um banho quente
tirei a feia barba
tomei café com leite como tomam os condenados


(na obrigação de vida 
venda estranha
pro futuro)


Andei meus passos tortos
Sentei à mesa farta
de ódios de fuligem de meus sonhos condenados


e engoli o choro
fingi não ter vergonha
sorri como se a lei me fosse a sacra segurança


Comi salmão grelhado
com ar aborrecido
menti quando disseram que estava muito estranho


(e apaguei os pecados
com um doce
sublimado) 


Tentei fechar os olhos
sem ver meus velhos trilhos
meu trem não me esperava
foi-se em tempo pro exílio


Segui de volta à lida
e li mais letra morta
no texto eu escarrei setenta dúzias de brocardos


E fui embora morto
rever velhos amigos
fingi que suas rugas eram óleos sobre tela
bebi muito chianti
comi grana padano
no prato principal trouxeram sete tempestades


Toquei muitas pessoas 
decifrando seus instintos
achei o que queria em outro copo de absinto
deitei na via láctea
no rabo de um cometa
disseram que a alguns maus-tempos eu me submeta
segui de olhos fechados
segurando na brisa
girando fortemente vi éguas desembestadas


Cantei Chico Buarque
com voz de passarinho
latidos ecoavam dos cachorros dos vizinhos
ali naquele ninho 
ali naquele ninho
gritei como quisesse assassinar a madrugada
dormi em polvorosa
e acordei com os santos
que não me perguntassem e eu não responderia


E fez-se tudo quieto
e amanheceu o dia
e o mundo torturou minha cabeça que doía
e Deus ficou calado 
do lado de Maria
que estava com vergonha de advogar por meus pecados


Tomei café com leite como tomam os condenados
num corredor da morte 
que me mata 
todo dia

sexta-feira, 30 de abril de 2010

The Thirty of April

O

golden
fiery
untouched Friday
don't you dare bringing back
my Aprilian
loneliness.
O great Friday
from this maze
thou art a gargantuan exit gate.
Friday Friday Friday Friday
quit comingoing in my head.
Putrid
Friday
Lost
Friday
confess your whereabouts.

Hans is getting way too rispid
at me, I don't know what's happening,
but suddenly I see no sense in that.
Pyramids are too
old-fashioned
and I am starting to believe
fashion exists.

(...)

sábado, 24 de abril de 2010

Nesse rincão da Terra em que todos os caprichos são conhecidos por nós, e nós apenas, nesse pedaço de céu que nunca viu mau tempo, ao qual estamos desacostumados, nessa faixa de areia que protege nossos sonhos frágeis e que muito possivelmente jamais se cumprirão, cumprimos nossa pena pela existência. Nossa porta de entrada permanece aberta, mas ninguém conhece seu paradeiro, e continuamos sozinhos, cantando abraçados como se, entoando aquelas mensagens de grandiosidade, nos livrássemos da pequenez de nossa cela. Acreditamos em muita besteira, às vezes, é verdade. Nossos aromas são particulares e nosso dialeto é quase secreto, e não hesito em afirmar que, em poucos anos, nossa raça terá sido dizimada da face do planeta tão grande. Nesse resto de paraíso em que nascemos, para lá viver, olhamos o mar, esperando que traga algo de bonito de lá do outro lado, ele que é mesmo muito maior que nossas próprias vidas.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Perdição

Em nome do pai
me fiz filho
pródigo de vontades
descontrolado
fugitivo do presente
ausente
da natureza palpável
meu espírito a um canto
decadente
já não percebe quando mente
quando sente
e quando seca.


Não creio em meus atos
fatos desconexos
meus desejos traem
as circunstâncias
e meus sextantes
e astrolábios
perdem o prumo
alfarrábios
de lixo 
abarrotam as gavetas
que me contam de céus e de terras
e do que tenho visto
por este caminho
— já não sei que sou.


Em nome do pai
sem trilhos
meu espírito a um canto deseja matar


a mim.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Chegou um tempo em que nada importa.
Nenhum estímulo obtém de mim resposta alguma.
Vejo na rua pessoas passando
e não me interesso por ninguém.
Minha rotina é uma montanha-russa
perdida no meio da vastidão do vácuo.
Esse saber que me ensinam para mim
pouco importa, essas verdades sem arte
são, para mim, uma cela em meio ao paraíso.
Meu coração se tornou uma bomba de sangue
e morro de medo da hora em que explodir.

Chegou um tempo em que um beijo
não significa mais absolutamente nada.
O amor se perdeu pelos caminhos
errados
que tomei.

Posso seguir em frente.
Ou posso encontrá-lo.

sábado, 13 de março de 2010

Poema de dominação

Por quem serei amado?

Por gente, por coisas, por realidades inventadas?
Poemas, histórias, presentes, serenatas?

Quem me amará se eu me quedar sozinho
nas madrugadas que aqui são estreladas?
Quem deitará ao lado e admirará meu sono
tendo como desejo para si mais nada?
Quem se apaixonará pelo meu canto,
minha escrita, meu olhar ou minha risada?

Quem me quererá acima de mais nada?
Quem compreenderá minha alma de poeta?
Quem entrará nesse beco sem saída?
Por mim, quem esquecerá de vez a rota?

Quem lerá meus livros e os guardará na estante?
Quem deitará na cama até que eu me levante?
Quem aprenderá meus devaneios de amante?

Quem calará a boca, se eu gritar?
Quem chorará num canto, se eu quiser abandonar?
Quem enfrentará o escuro se o abajur eu apagar?

Quem é que quererá?
Quem é que quererá?

quarta-feira, 10 de março de 2010

Coup de foudre em Guarulhos

Inverdades
de sala
de embarque
pessoas não são
quem são
imagina-se
apenas
e então
que na verdade
elas são
outras pessoas
a nosso gosto
ou precisão.
Por isso eu
que quero ser
alguém que não sou
imaginei que você era
a pedra no meu caminho
à sombra da qual
eu sentaria
e choraria
e de onde jamais
sairia.

Você ajeitou os cabelos
e me olhou
de um jeito
percebi
que você me queria
seu passaporte era espanhol
ou inventei isso
seu coração
era brasileiro
e saía de são paulo
querendo voltar
percorria distâncias
atlânticas
ao meu lado
flertando
telepaticamente.
Na minha mente
inventava seu nome
caliente
e ouvia gabriela
naquele tom
eterno
e soberano.
Mas a seu lado
a pessoa mais inútil
e mais odiada do voo
(odiada por mim
que já é suficiente)
não parava de falar
sem perceber-te.
Era em mim que pensava.

Ao pisar em terra firme
tudo que havia inventado
evaporou para as nuvens
e ficou no céu.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O confiteor da lembrança

Hoje descobri que jamais conseguirei
me desvencilhar dela.
Estou preso a ela por um elo de luz,
uma corrente de ferro
ou uma coleira de cachorro.
Sua presença é o pressentimento da onda
quando o mar me puxa para dentro
antes de me cuspir com espalhafato.
Hoje descobri que jamais
serei capaz de isentar-me dela

porque seu olhar tem qualquer coisa de segredo
e seu sorriso tem um quê de lacrimoso
sua pele me convida ao tato
e seu perfume eternizado me convida ao pranto.
Hoje descobri que a voz dela
não me soa mais enfadonha.

Nada continua como estava: sou outro
e busco outros mais, aliás
não tem critério sólido, essa minha vontade
de sair à vida, e jogar-me à merda
e apaixonar-me por telas de cinema
e por poltronas de avião.
Nada permanece além do perfume
que sobrou da ausência rígida
que herdei dela.

sábado, 30 de janeiro de 2010

O lenço de Heathrow (esboço)

Um velho homem entra no café bem vestido em seu terno italiano — ele próprio parecia ser italiano, pelo jeito que cantava as sílabas — e senta no sofá perto da parede. Seu filho — parecia seu filho — vai ao balcão para lhes comprar duas grandes xícaras de capuccino e um pain-aux-raisins que parecia delicioso. O velho, esperando o filho, reclina as costas na espalda do sofá com um ar cansado. Tira do bolso interno do paletó um lenço antigo e, sem cerimônias, cobre a boca e tosse longamente. Como um galã decadente, recompõe-se em seguida, limpando os lábios em seguida e retornando à posição elegante com que havia chegado. Mantém-se em sua elegância durante alguns minutos. Sua postura rígida, seus lábios cerrados rispidamente, seus cabelos — escassos — penteados anacronicamente com algo que parecia brilhantina, tudo contrastava com o olhar frágil de criança após cair ao chão, que como um dique antigo, ameaça vaziamente jorrar.

Seu filho retorna e lhe chama o nome, não lembro se Francesco ou Luigi, Massimo ou Filippo, mas o velho não responde: apenas na terceira tentativa o filho consegue chamar a atenção do pai, que sussura algo como se pedisse perdão por sua distração. Pega cautelosamente a xícara e bebe devagar. Comenta algo com o filho com um sorriso frágil nos lábios, provavelmente rindo da falta de talento dos ingleses em preparar café como os italianos. No entanto, toma seu café elegante mas fragilmente até o fim. Come um pedaço do pain-aux-raisins por insistência do filho, mas recusa um segundo pedaço e o filho, resignado dá de ombros, acena negativamente com a cabeça em reprovação, mas aproxima de si o prato com o pão e começa a comê-lo. O velho, terminando de sorver as últimas reminiscências de espuma sorvíveis da xícara, põe-se a olhar, sem ver, os desenhos que o café havia deixado na cerâmica.

O filho, olhando no relógio, se espanta e fala apressadamente algo ao pai. Levanta-se ligeiro, e, como se percebesse algo ou como se ponderasse a importância dos seus afazeres, para e fita o pai longamente. Dá-lhe um beijo longo em cada lado da face e o abraça durante longos segundos. Olha o monitor das partidas e lembra ao pai que horas são. O velho acena com a cabeça lentamente. O filho, então, beija novamente o pai e se vai, recuperando o ar apressado. Para na porta e olha para o velho uma última vez antes de sua partida. O pai permanece imóvel no sofá, rígido mas frágil, pensando na vida.

Por fim, suspira fundo, põe-se de pé com algum esforço, colhe sua maleta e segue em direção à porta. Para mais uma vez, retira novamente o lenço antigo do bolso, cobre a boca e tosse com mais espalhafato que da primeira vez. Continua andando em direção à placa que diz partidas, olhando para o lenço antigo, que, sabia o velho, logo logo seria do seu filho.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O caminho para a distância (II)

São árvores que passam rápidas
pala janela
e nuvens que se fundem
ao céu
que me revelam a saudade
do verde mais verde
e do branco mais branco
da minha casa.
Não há conções quentes
neste lugar
e os sabores
não me satisfazem.
Sua beleza temporária
jogada pelos campos nevados
e pelos edifícios sepultados
me atrai
e me destrói.
O azul aqui é menos azul
e o amarelo, menos verdade.

Mas sigo em frente
em êxtase
desejando que tudo seja um sonho
lindo,
do qual eu venha a acordar
quando acabar.
E estarei deitado em minha cama
mais azul
debruçada sobre o rio e mirando
as ondas do mar.
Ao sul pertenço e do sul
jamais me desfarei.
E poderei entristecer
ao não ver o oceano
e poderei desonrar certa vez
minha língua-mãe
mas o bom filho
à casa sempre torna
e minha vontade é de ser bom
se puder.

Mas enquanto estou longe,
corro ligeiro por campos sem nome
passo por cidades
cujo povo jamais conhecerei
encontro meu olhar
com o de desconhecidos
que nunca mais verei novamente.

E sou feliz na minha dor.
Tenho música e tenho poesia
e gravo imagens para a posteridade,
sem medo e sem virtude
e me entrego a línguas que desconheço
e me destruo a cada esquina
e me refaço na surdina
e permaneço sempre constante,
mesmo longe,
na minha inconstância reflexiva.

Canção do Exílio

A vida era mais fácil
quando a distância para o exílio
era um desejo infungível dos dias
e madrugadas.
Quando não se percebia a vastidão dos oceanos
e se sentia que o mundo era pequeno
como o quarto azul dos trópicos. 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Pequeno retrato de Amsterdã

Pequenos prédios tortos
se debruçam sobre canais
que cantam cantigas velhas
pela boca dos sinos
e dos cisnes.
Um olhar se desvia
ao ver, puritano,
amor de verdade
enlatado na vitrine.
Sem pudor, jovens são jovens,
e à meia-noite, se reúnem
num culto misterioso
ao prazer.
E os sinos dobram
e a cidade, em festa,
dança animada as cantigas
velhas como a pedra
fundamental das pequenas alegrias.