domingo, 30 de agosto de 2009

Estou apaixonado pela vida. Passo olhando as cores e os ventos, as flores e os momentos, as dores e os lamentos, os amores e cumprimentos. O sol está doce sobre a boca timidamente sorridente da tarde. Mesmo pequeno, mesmo sozinho, mesmo despido, rio e danço, quando as circunstâncias dizem que não posso rir e quando o corpo teimoso insiste que eu não posso dançar. Minha voz está afinada e limpa, então canto para que escutem e para que cantem comigo, e para que façamos um hino e para que animemos o dia e para que façamos do dia uma festa encharcada de gargalhadas sem malícia, inundada de amigos que, não sendo numerosos, são grandes, imensos!, e não cabem em si. E que venham as memórias, e que venham os remorsos, e as tristezas, e os desejos destruídos, e sonhos despertados, e verdades escancaradas e segredos esquecidos: na cara deles, vou me armar do sorriso mais inocente que me deram os poucos mas gigantescos anos de vida. Meus companheiros buscam um caminho de fuga, meus amores se lançaram ao mar, minha ambiguidade revelou-se feroz e me engoliu diante do espelho. O horizonte do mundo está prestes a desmoronar, pois vou correndo mais rápido que a rapidez da Terra. E olharei o céu das madrugadas, e sua imensidade, e me sentirei pequeno porque o que existe é vasto e sou ninguém, mas o dia nascerá e eu terei a proteção das nuvens que me cobrem aqui. E que venha o sol esconder a lua, pois preciso dos dias, e das tardes e das alvoradas e de suas cores que em dez minutos me pintam por dentro maravilhosas. Preciso desesperadamente dos olhares poderosos da pessoa que amo querer, longínqua... Mas vou buscá-la para ver se a encontro, e se a encontrar, vou por-me tonto, e num beijo singelo vou inaugurar uma nova era. E não importa o que vão pensar sobre a minha obviedade, sou filho do amor mesmo e do amor eu vim e para o amor eu vou e que minha vida seja amor e que, quando eu morrer, minha lápide seja escrita com sinceridade pela pessoa que eu ame e que tenha me matado de amor. Beijo o mundo, amo a vida, observo o futuro e acaricio o passado. Irei de encontro ao mundo, que me chama, assim que acordar do sono que os pássaros da manhã me estão oferecendo como presente.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Anagrama pluvioso

Essa chuva encharca tudo
quando não se tem galochas.

Aproximadamente um milhão de poças
se formam na frente da minha casa

e nas poças até as cores
se encharcam
mudando de cor nos panos, nas paredes
e no asfalto.

Tudo fica molhado, algumas coisas afundam
outras boiam.

Com essa chuva invernal,
até as letras flutuam
e se embaralham.

Minha alma, por exemplo
acaba se encharcando tanto

que vira lama.

Anagrama pluvioso

Sem galochas
nem umbrela
chove chuva
na janela

eu me viro
pela cama
se me ama
um suspiro

chove chuva
encharcando
tudo é lama
lama em tudo

essa chuva en-
charca tudo
letras boiam
e afundam

chove chuva
enche d'água
alma encharca e
vira lama.


segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Para Pedro

Quando toca o laranja o azul dos tecidos
da cama e o bege das cortinas e o marrom dos cabelos
meus, desperto-me sem cerimônias e abraço
sem repugnância o corpo forte da aurora.
Vem o sol e aquece a pele e ilumina o caminho
e acende o sorriso que quero para mim.
E me diz a verdade, e me conta segredos,
e me abre cancelas que jamais antes vira
eu, que, preso no mundo, vivia liberto
em meu quarto diminuto. E quando vem
a luz mostrando a paleta dos olhos e das faces
e dos corpos que, nus, se recusam a perpetuar
a espécie, e das mãos que, por serem iguais
buscam tímidas o conforto de ambas, e dos pés
que, grandes como pontes, atravessam os rios
e destroem os fios tênues que tentam em vão
separar o real da ilusão amarga. E não perguntem

onde estava Deus, pois a resposta é incerta
e os olhares pecam e eles tem medo da retaliação.
Mas não há porta aberta, e dos altos das janelas
apenas os pássaros, que nada entendem, os olham
cantando árias e pequenas canções de amor.
Não culpem o espelho, seu reflexo era apenas
uma das fatalidades do sexo, que, fortuitamente
resolveu conspirar para que os abraços os fizessem
tornar-se em um corpo só. Sob o sol, sempre sós

somos nós, cegos nós, como o amor. Sob o sol,
vejo o sol, quero o sol, ardo o sol, sempre só
Com o azul dos tecidos e o marrom dos cabelos
e a paleta do olhar e os lábios vermelhos
e olhar no espelho e os dois eus sem medo
e o amor no olhar que ao meu é espelho
porque entre mim e mim mesmo inexiste
qualquer ponte, distância ou barreira
pois nós somos e seremos um só.

Um Pedro de cada lado
do espelho.

domingo, 2 de agosto de 2009

Ao falso gigante

Abra sua janela e feche sua cara:
seu comando indiscutível
já não é mais minha verdade.
Já comi do fruto proibido
e o bom e o mau se revelaram.
Já não temo o calor da minha carne:
sei que a vida independe de questionamentos.

A realidade que você prefere engolir a seco
dissipou sem misericórdia a névoa da dúvida.
O mundo é redondo, o céu é azul, você
terá de ir quando chegar a hora
e, agora, sei que a inaptidão é,
na verdade,
impossibilidade.

Então não me olhe como se eu cometesse
uma séria ilegalidade, não se cale
em busca de uma falsa seriedade
nunca tente
converncer-me de que o caminho a seguir
é aquele que você trilhou tão seguro
e tão pouco
sonhador.

Poupe-me completamente
de sua parca estupidez.
Se quiser, ignore o inevitável
na sua roda de amigos corretos
com opiniões irrefutáveis
e morais irreprimíveis
enquanto toma falsamente sossegado
sua cerveja do domingo.

Essa amarga cerveja de todo domingo.
Estupidamente
gelada.