Meus verdadeiros amigos são muitos:
Não mais que uma dúzia de pessoas
e umas muitas dezenas de livros.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Carnaval
Me diga quem você é
por favor
me diga quando vem me ver
me diga quando vai fazer
o que quer
me fale quando quer morrer
que vou com você
me avise quando for chorar
que me acabarei
e na quarta-feira de cinzas
comece o carnaval
amanhã volta tudo ao normal
mas o bloco não terminou
ainda quero dançar
quero começar
porque, amor,
nessa minha escola todo dia é dia de carnaval.
por favor
me diga quando vem me ver
me diga quando vai fazer
o que quer
me fale quando quer morrer
que vou com você
me avise quando for chorar
que me acabarei
e na quarta-feira de cinzas
comece o carnaval
amanhã volta tudo ao normal
mas o bloco não terminou
ainda quero dançar
quero começar
porque, amor,
nessa minha escola todo dia é dia de carnaval.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Alegoria do presente erodido
Para T.S. Eliot.
"O hábito tem-lhe amortecido as quedas"
— Clarice Lispector
"At midnight, in the month of June
I stand beneath the mystic moon
[...]
The lady sleeps! Oh, may her sleep,
Which is enduring, so be deep"
— Edgar Allan Poe
I. Prelúdio sonolento
Madrugada
na rua
só a lua
despida de poesia.
Um gato
traz em seus olhos
faróis
de carro
e vai embora.
Agora
a essa hora
até os bandidos
dormem
com medo
do monstro debaixo da cama.
As avenidas da cidade
no escuro
são uma teia
e no escuro
sob a cidade
uma aranha gigante
come lixo.
A população dorme
ou morreu há duas décadas.
Nem grilos
há.
Putas ficam paradas
nas esquinas
feito repartições públicas
e as repartições
se vendem
feito putas.
Mas não agora.
Não existe dinheiro
agora.
Não há conversa
agora.
Na cidade fantasma
estou só.
Nada faço
só estou.
O dia se foi há horas
e no por do sol
uma menina se casou
e foi morar
no Musée d'Orsay
enquanto outra
chutou uma nádega
e foi aninhar-se
no colo de uma rocha.
Não há ninguém
competente em Brasília
e São Paulo está
muito menos feliz.
E o barulho de um carro
parecia um carro
mas era
o vento
com certeza
pois não há carros agora
se não há motoristas:
nem mesmo
os semáforos
estão funcionando.
II. Angústia da liberdade à Neruda
Faz quanto tempo
que anoiteceu?
Aonde foi o sol
que me trouxe a lua?
E aquela dança
que a lua fazia?
Por que só responde o
que eu pergunto o eco?
Que sentido existe
em compor poesia?
Cadê meus amigos
desde o fim do dia?
Por que bom dia eu falava
se só respondem boa noite?
E por que a noite é boa
se ninguém está acordado?
Para onde vou se a avenida
se esvai em doze ruelas?
Por que dizer eu te amo
se agora só tem cadela?
Por que eu estou vestido
se não há hinguém olhando?
Por que estou perguntando
se ninguém nunca responde?
III. Elegia nostálgica
Recordo-me
nitidamente
de uma grande certeza marcada
na agenda
para acontecer em oito.
Mas não foi.
IV. Resposta cínica à elegia nostálgica
Você não usa agendas
nem nunca as usou.
Pra quê lamentar as sendas
que nunca respeitou?
Em vez do trabalho é praia
em vez do estudo é amor
quer plantar com a mão adubo e
morrer sob o trator!
Não pedi que me encontrasse
enquanto era dia
mas talvez você achasse
quis ver o que faria!
Quis ver o que você faria
não é nada de mais.
Eu sempre controlaria
meus atos propositais...
V. Tédio sem perspectiva
Que fazer quando é noite
e a noite
tapou meus ouvidos
ou as bocas enormes
de quem se diz estar dormindo?
Para onde ir?
Para as ruas de asfalto.
Que fazer?
Ir atrás do sol posto.
Posto onde?
Vamos descobri-lo.
Esse sol está aí escondido
em algum lugar
seguindo a pista de piche
procuro sem saber onde.
Leiteiro! Leiteiro!
onde
diabos o sol se esconde?
...
Menino do jornaleiro!
que caminho pego
pro sol de fevereiro?
...
Vigia noturno!
Vigia!
— dorminhoco sem vergonha.
Dizem esses meus poetas
o sol
dorme
no mar
mas a praia é uma enorme
placa de não perturbe.
February is the cruellest month
que sorte que é o menor
de todos.
Vamos, sapatos
direita
esquerda
de novo.
O vento
sabe de tudo
mas
sua língua eu não falo.
Fico parado
pra ver
se ganho paciência
de árvore.
Sem relógio, não sei
que horas vai amanhecer
nem sei
se de fato
o tempo
está mesmo
passando.
VI. Verdade do otimismo
Depois de horas de espera
árdua
pesada
hostil,
ele consegue encontrar seu destino
ou seu objetivo ou
sua meta ou
sua linha de chegada ou
seu dia raiado.
¡Oh!, qué llanura empinada
Con veinte soles arriba.
Depois dessa noite velada
sem sono
sob o sol
ele encontra a rota perseguida!
VII. Devaneio do pessimista que se diz realista
Todos os relógios se traíram
face ao destino implacável
e tempo parou num assobio
do vento ou nenhum barulho.
Ferido de amor, caiu
e agonizou sem morrer
pois mesmo a noite morria
sem o dia amanhecer
Ô mon Dieu, vous l'avez blessé d'amour !
ACTA NON VERBA,
Petrus Vimaranes. II/MMIX.
"O hábito tem-lhe amortecido as quedas"
— Clarice Lispector
"At midnight, in the month of June
I stand beneath the mystic moon
[...]
The lady sleeps! Oh, may her sleep,
Which is enduring, so be deep"
— Edgar Allan Poe
I. Prelúdio sonolento
Madrugada
na rua
só a lua
despida de poesia.
Um gato
traz em seus olhos
faróis
de carro
e vai embora.
Agora
a essa hora
até os bandidos
dormem
com medo
do monstro debaixo da cama.
As avenidas da cidade
no escuro
são uma teia
e no escuro
sob a cidade
uma aranha gigante
come lixo.
A população dorme
ou morreu há duas décadas.
Nem grilos
há.
Putas ficam paradas
nas esquinas
feito repartições públicas
e as repartições
se vendem
feito putas.
Mas não agora.
Não existe dinheiro
agora.
Não há conversa
agora.
Na cidade fantasma
estou só.
Nada faço
só estou.
O dia se foi há horas
e no por do sol
uma menina se casou
e foi morar
no Musée d'Orsay
enquanto outra
chutou uma nádega
e foi aninhar-se
no colo de uma rocha.
Não há ninguém
competente em Brasília
e São Paulo está
muito menos feliz.
E o barulho de um carro
parecia um carro
mas era
o vento
com certeza
pois não há carros agora
se não há motoristas:
nem mesmo
os semáforos
estão funcionando.
II. Angústia da liberdade à Neruda
Faz quanto tempo
que anoiteceu?
Aonde foi o sol
que me trouxe a lua?
E aquela dança
que a lua fazia?
Por que só responde o
que eu pergunto o eco?
Que sentido existe
em compor poesia?
Cadê meus amigos
desde o fim do dia?
Por que bom dia eu falava
se só respondem boa noite?
E por que a noite é boa
se ninguém está acordado?
Para onde vou se a avenida
se esvai em doze ruelas?
Por que dizer eu te amo
se agora só tem cadela?
Por que eu estou vestido
se não há hinguém olhando?
Por que estou perguntando
se ninguém nunca responde?
III. Elegia nostálgica
Recordo-me
nitidamente
de uma grande certeza marcada
na agenda
para acontecer em oito.
Mas não foi.
IV. Resposta cínica à elegia nostálgica
Você não usa agendas
nem nunca as usou.
Pra quê lamentar as sendas
que nunca respeitou?
Em vez do trabalho é praia
em vez do estudo é amor
quer plantar com a mão adubo e
morrer sob o trator!
Não pedi que me encontrasse
enquanto era dia
mas talvez você achasse
quis ver o que faria!
Quis ver o que você faria
não é nada de mais.
Eu sempre controlaria
meus atos propositais...
V. Tédio sem perspectiva
Que fazer quando é noite
e a noite
tapou meus ouvidos
ou as bocas enormes
de quem se diz estar dormindo?
Para onde ir?
Para as ruas de asfalto.
Que fazer?
Ir atrás do sol posto.
Posto onde?
Vamos descobri-lo.
Esse sol está aí escondido
em algum lugar
seguindo a pista de piche
procuro sem saber onde.
Leiteiro! Leiteiro!
onde
diabos o sol se esconde?
...
Menino do jornaleiro!
que caminho pego
pro sol de fevereiro?
...
Vigia noturno!
Vigia!
— dorminhoco sem vergonha.
Dizem esses meus poetas
o sol
dorme
no mar
mas a praia é uma enorme
placa de não perturbe.
February is the cruellest month
que sorte que é o menor
de todos.
Vamos, sapatos
direita
esquerda
de novo.
O vento
sabe de tudo
mas
sua língua eu não falo.
Fico parado
pra ver
se ganho paciência
de árvore.
Sem relógio, não sei
que horas vai amanhecer
nem sei
se de fato
o tempo
está mesmo
passando.
VI. Verdade do otimismo
Depois de horas de espera
árdua
pesada
hostil,
ele consegue encontrar seu destino
ou seu objetivo ou
sua meta ou
sua linha de chegada ou
seu dia raiado.
¡Oh!, qué llanura empinada
Con veinte soles arriba.
Depois dessa noite velada
sem sono
sob o sol
ele encontra a rota perseguida!
VII. Devaneio do pessimista que se diz realista
Todos os relógios se traíram
face ao destino implacável
e tempo parou num assobio
do vento ou nenhum barulho.
Ferido de amor, caiu
e agonizou sem morrer
pois mesmo a noite morria
sem o dia amanhecer
Ô mon Dieu, vous l'avez blessé d'amour !
ACTA NON VERBA,
Petrus Vimaranes. II/MMIX.
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