Ali, na sala de banhos, a mulher ouvia aquela canção no rádio, que vinha ondulando pelo ar frio da cidade lá fora, uma cidade que, malgrado toda a luz que lhe dava esse aspecto tão pomposo de uma cidade cheia de si, dormia com uma expressão tristonha sob suas pálpebras cerradas. A mulher nua pensativa na banheira fumegante, cuja água clara refletia a luz amarelada da luminária logo acima. Sob a água, via-se seu pescoço muito branco e fino, seus seios rígidos e pequenos, seu ventre absolutamente plano, seus braços lânguidos que acariciavam suas coxas magras e alvas, e, sob a água, seu sexo negro se destacava da brancura do seu corpo iluminada pela luz amarelada da luminária acima. Seus louros cabelos molhados desmanchavam um penteado que parecia ter sido feito com um esmero quase sobrenatural.
A mulher na banheira tinha uma expressão não se sabe se cansada, triste ou simplesmente pensativa, suas pálpebras pendiam sobre seus olhos castanhos, cílios longos escurecidos pelo rímel de algumas horas antes, maquiagem carregada, batom vermelho. Seu rosto parecia escutar atento àquelas notas que chegavam ondulando ao rádio do quarto ao lado, àquela voz feminina rouca na medida exata, e a fumaça do seu cigarro dançava lentamente ao som daquela música de depois do amor. Uma mão levando o cigarro da marca favorita à boca, outra mão acariciando os mamilos rijos e fazendo ondular a superfície da água acima. O olhar perdido e cansado da mulher na banheira eram a expressão mais externada do seu pensamento. O Sena estava calmo e não murmurava nada à lua no céu. A mulher na banheira ouvia a música, fumava o cigarro, acariciava seu corpo e pensava.
Pensava nas mãos que percorreram aqueles exatos caminhos em seu corpo minutos antes, pensava naqueles olhos escuros que a olharam com uma faísca que ela jurava ter visto lá no fundo. Lembrava e relembrava o modo como aquele homem a segurara para que não fugisse às suas carícias, recordava do modo como os dedos do seu amante deixaram marcas em suas costas brancas. O cigarro acabava entre seus dedos que pareciam não estar ali, mas ela não se deu conta. Só se fixa à memória do modo como ele tirara suas vestes de festa, de como selvagemente ele abrira sua própria camisa fazendo cair um botão a que ninguém deu importância. De como ele chamava por ela quando ela se desvencilhava de seus braços para tirar os lençóis de sobre a cama perfeitamente arrumada. A mulher nua na banheira não podia esquecer dos lugares por onde tinha passeado sua mão em uma dança ora doce, ora frenética há poucos minutos antes. Não podia parar de pensar no modo como ele a puxara para a cama que não havia sido aberta por completo, de como ele a tomara por assalto e do modo como ele a invadira, sem dó, sem valor, sem idéia, com apenas um pensamento fixo e permanente: tê-la para si naquele momento. Ela não podia esquecer os sons que preencheram seus ouvidos, as sensações que preencheram sua alma e os prazeres que preencheram seu corpo.
Relembrou, agora com um sorriso discreto em seus lábios vermelhos, do fim ofegante daquele espetáculo. Lembrou de como se deitara na cama e pusera sua cabeça sobre aquele homem, há pouco tão rijo e agora mortificado pelo cansaço que lhe trouxera o amor. Não sabia a mulher quanto tempo durara essa ordem estável em que permanecera junto do seu homem, junto da personificação de toda sua paixão acumulada pelos poucos anos e pela vasta experiência. A mulher, colocando o cigarro no cinzeiro que se encontrava ao lado da banheira, logo abaixo da luminária amarelada, lembra-se do momento em que seu amante se levanta, se veste e lhe diz: il faut que je te laisse, maintenant. Ela nada diz, só o observa nua na cama, lhe assiste sair do quarto ajeitando a gravata. Ainda sem nada dizer, levanta-se e vai para o banho.
A mulher na banheira pisca os olhos rapidamente três vezes, levanta-se e se envolve na toalha. Se enxuga sem pressa e segue para o espelho, onde retoca a maquiagem carregada. Depois de algum pensar, decide por soltar seus cabelos louros, o que lhe dá um ar infantilizado mas malicioso. Com um pouco de esforço, põe de volta o vestido e sai da sala de banhos em direção a seu quarto, onde o rádio ainda tocava aquelas canções tão em voga. Deitou-se na cama, acendeu outro cigarro. O rádio cantava je me fous du monde entier tant qu'l'amour inond'ra mes matins... Ela põe o cigarro no cinzeiro que havia no criado-mudo, onde estava o dinheiro que lhe deixara o homem que acabara de partir.
Fumou seu cigarro para esperar o próximo.
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
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2 comentários:
http://cabecavazia.files.wordpress.com/2007/12/steinberg4.jpg
v
*final belissimo
*___*
Adorei as descrições e o final da história. XDDD
Magnifique! \o
bisous
=**
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