segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Para Pedro

Quando toca o laranja o azul dos tecidos
da cama e o bege das cortinas e o marrom dos cabelos
meus, desperto-me sem cerimônias e abraço
sem repugnância o corpo forte da aurora.
Vem o sol e aquece a pele e ilumina o caminho
e acende o sorriso que quero para mim.
E me diz a verdade, e me conta segredos,
e me abre cancelas que jamais antes vira
eu, que, preso no mundo, vivia liberto
em meu quarto diminuto. E quando vem
a luz mostrando a paleta dos olhos e das faces
e dos corpos que, nus, se recusam a perpetuar
a espécie, e das mãos que, por serem iguais
buscam tímidas o conforto de ambas, e dos pés
que, grandes como pontes, atravessam os rios
e destroem os fios tênues que tentam em vão
separar o real da ilusão amarga. E não perguntem

onde estava Deus, pois a resposta é incerta
e os olhares pecam e eles tem medo da retaliação.
Mas não há porta aberta, e dos altos das janelas
apenas os pássaros, que nada entendem, os olham
cantando árias e pequenas canções de amor.
Não culpem o espelho, seu reflexo era apenas
uma das fatalidades do sexo, que, fortuitamente
resolveu conspirar para que os abraços os fizessem
tornar-se em um corpo só. Sob o sol, sempre sós

somos nós, cegos nós, como o amor. Sob o sol,
vejo o sol, quero o sol, ardo o sol, sempre só
Com o azul dos tecidos e o marrom dos cabelos
e a paleta do olhar e os lábios vermelhos
e olhar no espelho e os dois eus sem medo
e o amor no olhar que ao meu é espelho
porque entre mim e mim mesmo inexiste
qualquer ponte, distância ou barreira
pois nós somos e seremos um só.

Um Pedro de cada lado
do espelho.

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