O sol estava fraco
por pouco era dia
O chão estava frio por causa do ar-condicionado.
Tomei um banho quente
tirei a feia barba
tomei café com leite como tomam os condenados
(na obrigação de vida
venda estranha
pro futuro)
Andei meus passos tortos
Sentei à mesa farta
de ódios de fuligem de meus sonhos condenados
e engoli o choro
fingi não ter vergonha
sorri como se a lei me fosse a sacra segurança
Comi salmão grelhado
com ar aborrecido
menti quando disseram que estava muito estranho
(e apaguei os pecados
com um doce
sublimado)
Tentei fechar os olhos
sem ver meus velhos trilhos
meu trem não me esperava
foi-se em tempo pro exílio
Segui de volta à lida
e li mais letra morta
no texto eu escarrei setenta dúzias de brocardos
E fui embora morto
rever velhos amigos
fingi que suas rugas eram óleos sobre tela
bebi muito chianti
comi grana padano
no prato principal trouxeram sete tempestades
Toquei muitas pessoas
decifrando seus instintos
achei o que queria em outro copo de absinto
deitei na via láctea
no rabo de um cometa
disseram que a alguns maus-tempos eu me submeta
segui de olhos fechados
segurando na brisa
girando fortemente vi éguas desembestadas
Cantei Chico Buarque
com voz de passarinho
latidos ecoavam dos cachorros dos vizinhos
ali naquele ninho
ali naquele ninho
gritei como quisesse assassinar a madrugada
dormi em polvorosa
e acordei com os santos
que não me perguntassem e eu não responderia
E fez-se tudo quieto
e amanheceu o dia
e o mundo torturou minha cabeça que doía
e Deus ficou calado
do lado de Maria
que estava com vergonha de advogar por meus pecados
Tomei café com leite como tomam os condenados
num corredor da morte
que me mata
todo dia
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
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