I
Depois dela, veio o vazio.
Todo castelo que se ergue imponente
Um dia vira ruína.
Toda torre, todo templo
Toda casa e monumento
Um dia atingem a idade da aposentadoria
E simplesmente esperam que o tempo
Cruel e implacável como uma mãe zelosa
Remova cada pedra até triturar os alicerces.
As ideias de grandeza, aquela inteligência
Que estimava genial, se foram
Aquele olhar de esperança para o futuro
Encardiu-se na lama
E aquela doçura que um dia se declarou amarga
Ficou insossa.
E não há nada mais cruel que saber
Que está tudo bem
Que todas as rotas que se trilham
Encontram-se traçadas com destaque no mapa
E que a o mar que se singra em aventura
Ondula calmamente sob o olhar do farol.
E não se esqueça que ele está sozinho
Que o mundo está apinhado de gente boa
Mas ele está sozinho
Que a cidade vê passearem pessoas incríveis
Mas ele está sozinho
E que o horizonte está cheio de paixões
Mas ele está em sua cama grande
Sozinho.
Desesperadamente sozinho.
Calmamente solitário.
Como um monge.
E que lhe resta senão fechar a janela
E as cortinas arrebentadas
Para que não veja o mar?
Há amor no coração, e é doce
Não se estrague esse amor com água salgada.
O mar é um caldeirão de sentimentos
Diluídos como lágrimas em praias.
Permanece calado o jovem solitário
Como se do silêncio dependesse a existência
Como se da ausência completa de som
Surgisse vida
Então ele prende a respiração
E, anseando misericórdia,
Morre de vontade de viver.
Modestamente calado.
Humildemente destruído.
Obedientemente destroçado.
Desfigurado de suas feições de grande promessa
Para o futuro, que já chegou e não é nada daquilo
Que se esperava em 2005:
A profundidade do abismo só se vê
À medida que se margeia a borda.
E diria que dói, se pudesse
Mas nem a dor, que se revelou como aliada
Presente sempre nos momentos de vida,
Apareceu para oferecer consolo.
As pálpebras do mundo estão caídas
E seu pulso não se sente nos maremotos.
As montanhas, ao que parece,
pararam de buscar o céu.
II
(Eu não me reconheço mais em nenhum espelho, vidro ou lâmina d'água
Porque eu nem sei mais se ainda existo.
Alguém venha comigo e deixe o medo voltar
Estou preocupado por nem mais sentir receio
Tomando chá comigo mesmo, pergunto
Deus, será que eu morri?)
sábado, 4 de fevereiro de 2012
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