Nesta noite escura e tempestuosa
Em que os relâmpagos fotografam meu rosto cansado
Confesso, com um olhar taciturno e grave,
Que estou muito doente.
Minhas mãos acariciam o rosto mutante da brisa
E meus pés perdem o rumo que deixaram
Os grandes que vieram antes de mim.
Assisto calado e paralítico à minha
Estúpida, ridícula e miserável morte.
Sou uma galante frustração.
E é por isso, creio, que nesta noite escura e tempestuosa
Me despeço da minha realidade consorte.
Você que acompanha meus passos,
Para você deixarei um carro.
Para você que me diz que não vale a chance
Deixo um talvez esperado beijo.
Para você que me beijou, você que me abraçou
Deixo um olhar que fala à alma.
Talvez não me compreenda,
Você sempre morre antes de mim.
Ainda assim, olhe, mas olhe profundamente:
Os olhos secos de lágrimas e o coração que já não bate
São a dilacerada medida da minha doença.
Não estou doente por querê-la
Nem conheço sintoma algum dessa minha
Saúde bêbada e delirante do após orgasmo.
A tempestade fala ao meu ouvido de mártir
Sobre seu sono indiferente a metros deste papel.
Sonha, amante adormecida,
E não deixes que te arranquem a máscara
Cruel e capitolina da tua beleza.
Você é o mal do século
De quem me lê, você é uma doença
Para minhas mãos que escrevem miudezas
De poeta comum cheio de desilusões que iludem
Estou numa queda decrépita rumo ao nada
Estou caindo no campo desleal das metáforas
Estou morrendo.
Pintem um quadro da minha morte!
Toquem um velho samba triste!
Pequena, escreva meu epitáfio!
Abram um museu com meus papéis nauseabundos
Minhas palavras decompostas em pó,
Cheirem-nas pelos becos putrefatos!
Comam-nas pelos terrenos baldios da decadência
Hipócrita dos jovens do Jardins!
Um poema como soluço
Uma palavra lacrimal
O piscar da tempestade lá fora
E a morte premeditada de um poeta
Que jamais nasceu.
Se outra vez dirigir-me esse olhar
E esse sorriso número três
Sugue minha alma
Mas pela boca.
Mate-me assim que ler esta despedida
Entre nós há uma rocha velha
Fustigada pela maldição da beleza.
É lá que me matará.
Arranque meu coração com delicadeza singular.
*
Esqueça tudo.
Olhe meus olhos mais uma vez.
Sinta minhas mãos criminosas
E, em seguida, esqueça-as.
Tire seu coturno e pise a terra.
Joque fora a máscara
Me beije como se fosse me matar.
No clímax dessa dança
Penetre seu punhal em meu peito
E me veja agonizar.
Mate-me, assassina.
Mate-me rápido.
Estou muito doente.
Não quero cura.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
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Um comentário:
Excelente.
v
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