terça-feira, 18 de março de 2008

A calmaria dentro do labirinto

"Sou um meigo energúmeno"
(Vinicius de Moraes)


Livre de cortes de vidro
limpo de marcas de ferro
com a cabeça erguida de resignação
venho mostrar um olhar
simples, enorme e silencioso
como um templo em ruínas.

Vejo tudo o que desejo ver
dedos movendo-se ágeis como água do rio
lábios crispando-se por um beijo inocente
semblantes dissimulados mas lindos
olhares sinceros eternamente em preto e branco
e eternamente vivos sobre o papel escondido.
Os narizes quase se tocando
como narcisos sobre o espelho d'água:
como querer fim à cena?
ai de mim!

O peso mais pesado de um sim.

Há pios perto de onde há flores
e latidos nos gramados
uma canção vem de lá de dentro
eu ouço e sei.
Está tudo calmo demais
longe da capital federal.
Eu poderia jurar que o tempo está parado.
Umbucajás tombam de par em par:
como-os sem pudor.
Mangas caem também,
mas são demasiado opulentas.
Quero uma fruta pequena
dê-me um manjelão gordo
um tamarindo sem casca
quero algo simples

Meu império por um mergulho
na hora parada do Vaza-Barris!
Seguirei o sangue de Conselheiro
só para passar o tempo.
Deus! Onde foram janeiro e fevereiro!
Diga-me que já voltam...
O pescador de canoa prevê a vinda de março
fugindo com seu remo, seu sovaco suado,
seus siris desenganados.

Lá vem a maré de março, que calor!
Será que vai chover quando vier a pré-bonança?
Um espinho afaga minha derme
um mosquito quer o sangue do meu pé,
me deixa um calombinho de presente.
Alguém apareça para coçar minhas costas!

Ninguém diga nada
mas roubei o caderno do meu irmão
para escrever intimidade
tomara que ele não acorde.

De onde vem esse gosto de vinho?
Será que já é domingo?
A tevê está fora do ar.
Será que ela já dormiu?
Ah, interesse-se menos.
Que faria Ovídio?
Que pensaria Rimbaud?
Vinicius, volte...

Contemplo o tempo que com o tempo passa
Será a saudade o efeito doppler do tempo?

Talvez eu fosse mais feliz
no tempo em que não havia nós,
só contemplação:
distância
ausência
era uma calmaria só!
Eu não era nenhum vândalo da língua
e escândalo era uma paixão platônica
percebi que o muro que isola
é o mesmo que protege.
A bebida que aquece
é a mesma que embriaga

hoje eu durmo sóbrio como um ensandecido.

Nessa calmaria em que me encontro
lembrei-me de uma velha inocência
em relação ao sexo oposto.
Amigo, responda sincero:
era eu mais feliz?
Pequena, não fale nada
suas palavras atraem a trovoada.

O poema não seria o poema
se eu tivesse ficado em Aracaju.
Talvez fosse outro, mas não este.
Pixinguinha não haveria
nada de ecos de Peninha
Caetano calado seria um ídolo num nicho.
Haveria calmaria?

Devia ter-me ido quando pude?

Retorno a vinte-e-seis de janeiro de 2006.
Àquela canção em meus ouvidos.
Talvez eu não a conhecesse
armadilha de uma vênus ardilosa.
Caí por onde Bandeira e Cabral pisaram os pés.

Vejo-me hoje a léguas: vejo o mar.
Vejo o mar quando o mar é o que ela quer longe.
Nunca consegui fugir do mar
o mar jamais abandonei como sua família.
Meu coração é um livro de Joyce.
Não posso puxar pelo braço.

Calmaria.
Ela é maior que eu.
Ela é maior que eu, e eu não consigo alcançá-la.

Não guardo rancor jamais.
Aquele que comeu a rosa em botão como se fosse carne:
não o culpo
já fui traído: nada disse.
Acho que sempre sofro calado
e sorrio mesmo estando errado.

Mas nunca me desesperei.
Já quis fugir para o oeste, desisti
já quis ser Werther, tive medo
consigo quem quero quando quero
quase sempre
já bebi e já caí no chão antes da boa notícia
confesso que chorei, confesso que ri
beijei enquanto pude.
Fui, sim, feliz.
Se ainda o sou, já não sei.

Vislumbrei um grande amor em cinco horas
mas na sexta ele se espatifou no chão:
foi como voar do décimo-quinto andar sem asas.
Nunca estou só, então esvazio minha cabeça
boiando no rio salgado e vendo o mármore dos céus.

Sei que permaneço livre de cortes de vidro
e limpo de marcas de ferro
porque jamars sofri males da matéria.
Choro com últimos olhares, com aviões, com telefones
choro com vinho e com cerveja
choro com porta-retratos, com desenhos, com pães
com livros, com discos, com a Califórnia
californicanto ali fornicando
perto da casa do bom amigo meu.
Choro sobretudo com papel e caneta,
com poesia, com caligrafias.
Somos inseparáveis, cada um a seu canto.
Sinto eu prazer com meu cabresto e minhas rédeas?
Como bucéfalos por aí, às vezes
tenho náuseas, bebo além da conta
me atiro nu do prédio em chamas
viro macarrão à bolonhesa.
Há um monstro aqui dentro em algum lugar
acho que vou infartar, sou jovem demais
pra morrer, não vou morrer
só morro se me matarem, só morro
se me arrancarem o coração e a caneta
sou um meigo energúmeno.
Um cavalo selvagem, uma bobagem
um idiota, um tolo, um besta
mereço levar torta na cara
mereço gargalhadas as mais guturais
mereço perdão.
Sou péssimo sonetista sem nem tentar
sou de menor, não fumo
deleito-me vez em quando com álcool e sexo
mas não tento viver a vida inimitável
gosto de velhos sambas tristes, sou sentimental
sou um velho de dezessete anos de idade
acordo, como, vivo, durmo, acordo
sou comum.
Comum demais.
Simplório até.

Suicido-me diariamente.
Mas nunca consigo morrer.

2 comentários:

Anônimo disse...

rs

Fantastique...Acho que seja talvez seu poema mais auto biográfico...

BUT BY GOD MAN,do drink a little more .Something about getting drunk and being bored that makes a poet write more...164 is way little...

Acabou meio do nada...Cadê o resto?

v disse...

Porra.

v