terça-feira, 6 de outubro de 2009

Blasfêmia

Em certas noites
ou numa noite certa
(ainda não sei)
nalgum momento perto
do alvorecer
(num momento congelado
embora
na fita do meu tempo)
na maturidade
da madrugada
encontro-te.

E então desaparece
qualquer lucidez
as memórias do passado
não encontram paralelo.
Encontro-te gigante
amante, ofegante, simples
como roda de ciranda.
E no momento cristalino
em que te encontro
(mas nada virginal)
não me adianta tentar
falar, perco a eloquência
e minhas frases
perdem o rumo
e as palavras
perdem o prumo
e, mal e mal erguidas
ruem, num ruído
cansado e ensurdecedor.

E quantas blasfêmias
grito para ti, tentando
como um suicida em delírio
extirpar meus pulmões
(não sei se ouves)
e quantas heresias
cometo por ti
(cometo contigo)
crendo que o mundo
é um ponto em meio ao que há
(mas nós dois somos imensos).

E a lua, nesse momento
parado perto do dia
se mata, atirando-se
contra o horizonte duro
(se mata de ciúmes).
E o céu se inunda
dessa cor rara que brilha
pelas manhãs, quando por amar demais
perdemos a hora e não sabemos
se é dia
ou se é noite.

E não perguntes
onde estava Deus
pois Seus olhos
estão ocupados
tentando não olhar
para nós. Mas eu,
num átimo de insanidade
ponho-me de joelhos
e, como um santo
chorando convulsamente
rezo por ti.

Nessa noite certa
ou nessas certas noites
(adoraria sabê-lo)
esmaece tudo a nossa volta.
O momento se congela
o mundo para a nos olhar
enquanto eu, extasiado
não me importo em afogar-me à morte
no lago claro e fundo
dos teus olhos.

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