Não passavam nuvens e a lua não estava cheia
os carros já dormiam e o rio estava seco
nem mesmo o vento acariciava minha pele exposta.
Mas meu erro foi estar despido
no meio do labirinto, onde não sei
de que lado, atrás de que parede
vão me assassinar brutalmente.
O olhar que eu queria ter acalentando minha pele
se multiplicou em multidão infame.
Suas mãos carregam feixes de feno
e toras de madeira, e me guiam
firmes e determinadas
em direção ao fogaréu dos incondenáveis.
Meu erro foi ter a pele exposta
o sol é brasa, a terra é navalha
a brisa que suaviza e afaga é a mesma
que me joga areia nos olhos,
me impedindo de conhecer o caminho.
Meu erro foi estar nu
sem pudores, sem saber que minhas vergonhas
seriam esquadrinhadas por aqueles a quem a vida
preferiu dar uma mãozinha.
Minhas roupas de couraça, que tanto conheço
foram abandonadas onde todos os homens são leais
onde todas as fontes são puras
onde todas as virgens carregam hímen
e todos os amores são eternos.
Toda parvoíce minha é digna de retaliação.
Mas compreendam que eu estava só
e compreendam que eu estava nu
e entendam que minhas confianças foram dadas
a quem jamais será capaz de compreender.
Entendam que meu corpo moribundo
boia na superfície de um rio de boas intenções
todas podres e convertidas em fel.
Minha mente sacrossanta já esqueceu há muito
o gosto da hóstia abençoada.
Caio ao chão, sem fôlego para gritar
preparado para sentir sobre mim
o peso da certeza que me esmaga
e a qual todos pensam nem mesmo existir.
Compreendam que a calada da noite
é o silêncio de morte de um Criador que,
sabendo da minha vontade não Criada,
prefere simplesmente não existir.
Enquanto durmo, meu nome
comprido e feio, atravessa
as bocas de quem jamais falou-me
flechando com langor a quem à dor está acostumado.
Meu nome é doce e agradável às línguas ofídicas
e é fluido e se esvai no ar como perfume
e invisível como o gás que me mata
por eu ser eu, concentrado em um campo
em que os algozes que decaem comigo
chamam-se a si de meus amigos fraternais.
O suplício a mim soa prazeroso,
tenazes em brasa me parecem agradáveis
lâminas de aço, correntes de chumbo
rodas de madeira e pregos afiados
lanças pontiagudas, projéteis inflamados
todos parecem me revelar um prazer
de louco e um apreço ensandecido
pela dor. Sofro de cabeça erguida
e sei ser meu mundo fechado o único seguro
mas saio à rua, descolo do céu o adesivo da lua
e caminho silencioso e resignado em direção
ao mar morno que me espera faminto com a boca aberta.
Mas minha grandeza indulgente merece amor.
Meus olhos semicerrados merecem um olhar bonito,
minhas mãos merecem uma mão suave, meus braços
merecem um corpo pequeno, meus lábios merecem
sujar-se de batom, ou não, não importa
quero algo que expulse o vácuo que há em meu peito
pois sinto dor, sinto ardor, não sinto nada
não sinto a nostalgia da primeira namorada
mas sinto saudades das horas que passei ao telefone
das lágrimas que vi caírem junto à chuva
e do suor que derramei em pequenos cômodos
trancados a chave. Não quero relógio
vamos voltar, não quero ver os sóis se pondo
e se erguendo, e as luas mudando e voltando
a ser o que eram, pois meu sentir se revelou
averso ao tempo. Tenho medo de fracassar,
morro de medo de não amar, morro de medo,
morro de medo, de medo, morro.
Calem a boca todos os homens e mulheres do mundo,
calem a boca aqueles que usam meu nome
em vão, calem a boca, não quero ouvir lamúrias
nem celebrações, vivas ou ais, calem a boca
quero ouvir apenas o som da minha respiração.
Não me misturem a essa espúria sordidez
não me pronunciem pelos becos putrefatos
esqueçam quem sou e vão embora abandonados
e me deixem nu e só, pois a noite me chama
para olhar para a grandiosidade da vida
de dentro do seu útero gigantesco.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
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