sábado, 26 de dezembro de 2009

Ainda há fios
do seu cabelo
se escondendo por detrás dos móveis
e cheiros
do seu corpo
por entre as colchas da cama
sua caligrafia
no bloco de papel
em cima da escrivaninha desordenada
e seu olhar seguramente ensaiado
eternamente a fitar
a distância do outro lado do meu espelho.

Surgimos devagar, como um desenho
que de um ponto faz um traço
e de um traço faz uma forma
e de uma forma dois rostos
que se tocam de leve, e se enlaçam
e se faz a luz e se fazem as sombras
e os olhares se constróem sobre a irrealidade
do papel, e se desmancham em tinta
e se borra a tinta, e a luz se mistura às sombras
e os rostos se refazem, e as formas se confundem
e os traços enlouquecem e os pontos,
de tantos que são, transfiguram-se em constelação
de desventuras.

E ela, fluida que era, entrou
por todas as frestas, preencheu
todos os espaços, encharcou
toda superfície, como torrente
de sensações arrebatadoras
e sentimentos que me acorrentavam.
Mas ela, fluida que era,
como todo fluido que se preze,
secou com a mesma naturalidade
que exalou quando veio.

Se entregou a amores desvalidos,
encontrou sua saída, resolveu trair meu amor
com excitação pelo futuro e com saudade do passado.
Mas eu, taciturno que sou, esperei em silêncio
e lágrimas — secretas — por que ela viesse.
E demorou séculos, eras, milênios
até que ela viesse e se demorasse
entre meus braços pagãos e mentirosos
que lhe prometiam o mundo
mas eram só deserto.

Mas eu a amei.
Fechei a porta da varanda
de madrugada
e chamei seu número
no prédio ao lado
e ela, da janela
via junto comigo
a árvore de natal se apagar
e o sol acender a rotina.

Já nos amamos como bichos
em lugares inesperados
já choramos juntos
por verdades inventadas
já nos tocamos um ao outro
mais do que outros gostavam
e esquecemos tudo isso
porque o mundo gira, a lua muda
o sol se põe e a madrugada
come nossa vontade de viver.

Um comentário:

Marina Todt disse...

Bons tempos...Ótima poesia.