A voz da cantora me canta
anacrônica há dez anos atrás.
O porta-retratos da sala
mostra meu infante sorriso sincero.
O gosto amargo do scotch
é prova implacável do agora
e da vinda veloz dos anos.
O filme que vi no cinema
há coisa de mais de uma década
passa seus frames no fundo de meus olhos.
Meu pai usa óculos para leitura
e seus poucos cabelos estão grisalhos.
Minha mãe já não convence
com seus vinte-e-nove anos.
Por trás de minhas costas
há o choro da mulher que a mim se apegou,
há um sonho frustrado,
há muita cachaça pra a dor
e muita risada pro pranto.
Há traições de amigos, que perdoei
e fingi que nada foram,
há um mil-réis de poesia,
que leio e releio achando ruim,
há paz toda noite ao dormir.
Há saudade do amigo distante
e alegria pelo que se reaproximou.
(Ô novembres ! étés ! cajous !
Epígrafes de meus dezoito anos!)
Com uma caneta em mãos, rezo preces
de gratidão, choro um pouco
de felicidade, sinto um saudosismo
que me toma devagar como uma carícia.
Uma carícia assim, meio mãe,
meio mulher, talvez.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
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