segunda-feira, 13 de abril de 2009

Poema só

Me vejo
como vim ao mundo
com pesar profundo
sem nada
nem ninguém
sem solução
ou mesmo problema
sem poema
por já não saber escrever
e a caneta
que já não me obedece
não cresce
pois estou só
e só
não sou ninguém
pois não há ninguém
que me chame de alguém
estou sem
invejoso daquele que tem
seu bem
do lado
minha vida agora é fardo
pois estou só
e é tão pequeno estar só
que é só isso
não dói
no coração de quem é início
— eu sou algo já sem fim.
Sim.
Nem vontades tenho
agora
sem verdades estou
agora
sou vaidade só
agora
sou um padre
sem hora
pra rezar
embora
esteja casto
como um santo
— faz-me casto
mas não agora.
Fiz-me gasto
embora novo
tenho defeitos
não tenho jeito
sou um estorvo
de mim, enfim
sou agouro
do mau fim
não sei nada
da verdade
da maldade
da tristeza
da moleza
da mentira
porque sou eu
num canto
sem mais nenhum pranto
sem nenhum manto
que me cubra
do nada
querer.
Só sei querer
e se quero, perco
perco e desisto
desisto e finjo
e não cumpro
e não mais prometo
minhas promessas
a despeito
da vontade
de ser grande
enorme
que mora em mim.
Tenho dúvidas
sobre uma inteligência
que estimo
genial
o mau
é que não mais sei
se o mau
me é bom
ou se estou
enganado
pois do meu lado
já não há mais nada
ou ninguém
eu já não sei quem
sou
porque sou
mau
sou animal
sou boçal
sou mau
e, mais que tudo,
sou só.
Sozinho
a meu canto
choro um pranto
falo uma língua
que me lambe
e me deixa
nu
e me deixa ser
e escrever
e beber
pois só
estou
e só
sou
até o momento em que a cor voltar
e houver aurora
no horizonte.
Até lá, ego meu,
estarei inteiramente nu
e só.

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