que entra por entre os poros de minhas roupas
ou talvez seja pela visão saudosa
desse porto ancorado cuidadosamente
sobre a pele desse mar doce.
Ou talvez seja ainda pela idade desses prédios
ou pela história dessas vias
ou pela alma dos monumentos.
Talvez seja pela resignação daqueles homens
que dormem ao relento junto ao frio
dessas memórias.
Ou talvez seja por causa dos adolescentes lindos
que saem pela cidade como se
a vida fosse hoje, e não existisse mentira no efêmero.
Talvez seja pela vida que eu esteja exasperado
sob o sol, extático frente a esse horizonte que arrebata
esse vento que fustiga e essa terra que verdeja.
Talvez pela música que escuto que melancolicamente
posso entrever na penumbra do futuro
uma gigantesca irrealidade.
Seriam inverdades meus sorrisos de ontem?
Seriam enredos inventados meus amores que vivi?
E de onde segue a vida, que abunda para os belos jovens?
Meninos e meninas, não como eu, sem deslumbre
apenas com a simplicidade que lhes dá a manhã
que vem depois da outra manhã
que por sua vez vem depois da madrugada.
Sejam abençoados esses jovens que vivem,
esses jovens que querem, esses jovens que não pensam!
Sejam! Esvoacem matreiros pelas folhagens das praças
e pelas vitrines das lojas, e pelas mesas dos cafés!
Suplico-lhes tristemente, ensinem-me a ver
além de meus pensamentos inúteis de dúvida
quanto a tudo, beijem-me pelas esquinas ensolaradas
e me deem a felicidade de esquecer em que ano estamos
e quantos anos faltam para o futuro chegar.
Matem-me sem despedidas, concebam-me desesperados
cometam só mais um pecado e descansem,
comprem uma coca-cola, e um pancho
e um sorvete, e deitem no gramado e esqueçam os livros
de nada eles valem... Saiam de casa sem hora
pra voltar, levem-me com vocês, vocês são incríveis
mas não tem a cura para minha doença que me putrefaz.
Ainda assim, jovens maravilhosos, me mostrem
o caminho que percorrem sem mapa rumo ao ponto
onde todas as verdades sorriem e todas as vaidades se cumprem
sem que a boca do mundo como ele realmente é
estraçalhe nossos ossos sem misericórdia.

Um comentário:
lindo e genial
Postar um comentário