— Você nunca me olhou assim.
— Assim como?
— Assim, com esses olhos secos e sem vontade...
— Talvez seja porque eu nunca tenha te visto desse jeito.
— De que jeito, agora?
— Sentada nessa cadeira velha, sem postura, sem sua pose... Esses ombros arqueados, essa maquiagem borrada. Eu não sei o que anda acontecendo com você.
— Você quer que eu desenhe num pedaço de papel? Você precisa de manual pra ler minha maquiagem borrada, meus ombros — como você disse? — arqueados? Precisa? Será que você é idiota a esse ponto?
— Escuta aqui, garota.
— Solta o meu braço.
— Não adianta. Você não pode me humilhar na frente de toda a cidade, de todo o país!, porque eu sou grande, e eu sou importante, e meus amigos me querem bem, diferente dos seus — será que você tem algum amigo? Pare de fazer cena, pare de chorar que eu sei bem a merda de atriz que você é. Escuta aqui, você que me quis. Você tinha lá seus romances e eu tinha os meus, mas quando eu te quis você fingiu que eu não existia.
— Eu não te amava. Sua presença me intimidava, você é um grande sedutor. Mas eu não te amava. E então você me viu pela primeira vez, eu que já te observava de longe... há muito tempo. E quando você pôs seus olhos em mim você colocou na cabeça que eu tinha que ser sua, que eu tinha que terminar na sua cama ouvindo aquelas coisas bonitas que você gosta de falar... Que você decorou há tantos anos e repete sem vergonha no ouvido de todas que se prestam a deitar naquela sua cama imunda. Mas eu decidi que eu ia me conter e não ia ceder aos seus ímpetos sedutores.
— E foi o que fez.
— Foi o que eu fiz. Segui te ignorando, mas no fundo te queria, fui amando outros homens na sua frente pra te afetar, segui vivendo histórias de vida, pondo fotos em meus álbuns, criando memórias, enquanto você seguia longe mas não tirava os olhos de mim.
— Você conseguiu que eu chafurdasse na lama atrás de você. Sim, porque você tava na lama. Todas aquelas babaquices com seus namorados e seus amantes, e todo aquele delírio de amores eternos e felicidade pra sempre, tudo mentira, —
— Tudo mentira. —
— só pra me deixar sofrendo aos poucos, sangrando devagar, você sempre foi uma vagabunda sádica que me destroçou e me tirou do meu trono de ouro, em vez de ir lá e polir o ouro com uma flanelinha encardida como todas as outras fizeram.
— Eu sempre gostei de ser diferente. Pintei o cabelo de loiro quando todas as minhas amigas queriam virar morenas, namorei um poeta —
— Eu não quero saber das suas memoriazinhas fúteis. Você se acha muito inteligente, muito distinta, muito acima da média. Que tal o novo livro mais vendido da revista? Bom? Pensei em comprar pra dar pra Dona Juraci, a empregada da mamãe.
— Você... você não vale o chão que pisa. Canalha.
— Valho o chão que piso e valho o ar que você respira, e valho tudo que tá em volta de você, sua idiota, fui eu quem te deu essa cadeirinha, fui eu quem te deu essa caminha, fui em quem te deu esse apartamentozinho, o carrinho da garagem, fui eu, fui eu que te dei, fui eu! fui eu! Você nunca teve nada, você nunca conseguiu nada, não pôde atingir seus objetivos de vida, seus ideais de menina rebelde, esperta, distinta, um primor.
— Você é um coração de pedra. Nem a doença da minha mãe você respeitou, nem a morte do meu pai, nem o meu irmão que eu tive que sustentar, nem nada você respeita, nada você entende, nada você aceita, seu cretino. Mas eu te dei o troco que você merecia.
— Que troco? Me esnobar por dois anos? Pra quê? Tava poupando esse seu sexozinho de mim? Tava fugindo? Troco de quê? Pra quê? Eu já te coloquei nua na minha cama implorando pra eu te arrombar. Que troco é esse?
— O troco foi mostrar a todo mundo o grande babaca que você é. Um idiota. Um cretino, cafajeste, canalha. Não vou dizer nada da sua mãe, uma querida, ela, coitada, não merece o filho que botou no mundo. Aliás, eu não falaria nada do seu pai se soubesse quem ele é, você sabe? Quem é mesmo seu pai, amor? Ah, não brinca! Você tá chorando? Você, vertendo uma lágrima?
— Saia da minha frente.
— Filho-da-puta!
— Minha mãe não é uma puta, entendeu? Nunca foi! Nunca!
— Ah, é? Então você é filho de chocadeira?
— Lave sua boca pra falar da minha mãe, sua ordinária!
— Lavo, lavo, lavo com os fluidos corporais do seu melhor amigo, lavo com prazer. — Ai!
— Você mereceu.
— Você está louco, seu idiota! Saia da minha casa! Agora! Saia da porra da minha casa!
— Minha casa, você quer dizer.
— Você... você me bateu... Você me machucou...
— Pare de chorar.
— E depois... vem me perguntar... o que acontece comigo quando minha maquiagem borra, e meus ombros ficam arqueados e eu entristeço... por seus olhos sem vontade. Eu acabei de apanhar do homem que mais amei na vida. Mas que se foda, é essa a sina que eu mereço.
— Pare de chorar, mulher.
— Não diga mais nada. Eu não quero mais ouvir sua voz.
— Venha cá. Desculpa.
— Me largue.
— Foi o calor do momento, por favor, me escute...
— Saia de perto de mim.
— Não, não. Venha cá.
— Saia de perto de mim!
— Eu falo o que você quiser ouvir!
— Agora é tarde. Eu não quero mais ouvir nada. Eu não acredito mais em você. Não confio mais em você.
— Espere. O que você tá fazendo?
— Arrumando as malas. O apartamento não é seu? Não é seu tudo que tem aqui? Não se preocupe que eu não vou levar os vestidos que você tinha me dado.
— Não, não, fique. Pra onde você vai?
— Pra um hotel, sei lá. Saia da frente.
— Não precisa. Fique.
— Eu não quero ficar. Eu não quero mais saber de nada que venha de você, nada, entendeu?
— Não, não... Não, por favor, não... Me perdoe! Me perdoe...
— Não adianta mais chorar agora.
— Eu... eu te amo, eu te amo... eu te amo, amo, amo, eu te amo...
— Quem não ama mais sou eu.
— Me perdoe, pelo amor de Deus...!
— Você renegou Deus há muito tempo. Meu rosto ainda está doendo, eu tô sentindo minha pele arder, eu sinto cada dedo seu na minha cara, cada pedaço da sua pele, cada linha que a quiromante da Espanha leu. Você não faz ideia de como isso dói. Não porque um tapa machuca, mas porque um tapa fere o coração profundamente. Quem bate esquece que bateu. Quem apanhou, não esquece jamais.
— Você me ama, eu sei que ama... Fique aqui, não vá embora... não vá...
— Escute aqui. Eu vou falar pra doer mais em você. Eu... te... amo. Eu te amo, e sabe o que você fez? Você esbofeteou a minha cara como se eu fosse uma vagabunda que quer te roubar os cartões no meio da noite. Eu te amo, e você me deu um tapa na alma.
— Desculpe... Por favor, desculpe... Eu imploro...
— E olhem, olhe todo mundo! O velho bardo, comendo, em vez de rosas, cardo! O homem importante, cheio de amigos, ajoelhado no chão de uma zinha leitora dos mais vendidos! Você devia ter vergonha. Pronto, acabei minha mala. Isso é tudo que eu tenho na vida.
— Você tem a mim, amor...
— Você só tem a si mesmo. E olhe lá.
— Não, não me deixe sozinho. Não, você não vai entrar nesse elevador. Não vai sair, não vai!
— Me deixe passar. Os vizinhos vão acordar. Saia da frente, eu vou embora, fique com sua chave.
— Não... venha cá...
— Não, saia... Saia... Tire a mão daí...
— Não vá embora...
— Tire a mão... ah... —
— Eu não vou embora. Meus olhos estão molhados e cheios de vontade —
— ah... me deixe...
— e eu não vou te deixar nunca mais.
No outro dia, ao acordar, ela chorou ao ver o que viu.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
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