quarta-feira, 18 de abril de 2007

Sentado, sinto que estou em outro mundo. Não estou neste mundo, estou longe. No meu mundo, é noite. No outro, há aqueles que falam e aqueles que ouvem, mas em meu mundo não existe falar. Só ouvir. Eu ouço a voz de sua beleza, que em algum lugar, na penumbra dos pensamentos escondidos, me observa. Sinto-a me observando, mas não sei onde está. O lápis comeu a curva do espaço e do tempo, não há nada que faça sentido além da cor de sua pele, de seu sorriso, de sua risada. Pede-me para escrever-lhe um poema, mas não é possível, você está no trono, e a poesia é uma plebéia. Você destronou a poesia. Mas, por algo que não posso explicar com palavras deste mundo comum a nós dois, a poesia está feliz. Satisfeita. Satisfação é a melhor coisa do mundo. Dos mundos. Não sei se me observa do trono, sua presença é uma mera solução de ar com beleza de molaridade meramente poética, inexistente. Não existe verdade na poesia. Faça-me sentir o sabor dos absurdos e o cheiro dos olhares que vêm da alma. Da janela dela, pelo menos. Não sei se há sentido na poesia, não sei se há sentido em você. Você é poesia. Vocês se juntaram num conúbio noturno desde o momento em que você me falou da primeira vez. Eu estou aqui, você está a umas ruas de distância, mas, nesse exato momento, estamos juntos. Estamos sempre juntos na penumbra dos pensamentos escondidos. Você é bela. A poesia é bela. Você é poesia. A poesia não sente ciúmes de você. A poesia se excita ao ouvir falar na sua carne, treme ao ouvir o canto que vem de algum lugar escondido, inutilizado, encantador. Quero ouvir o canto. Quero ouvir o musical. Quero assistir à ópera. Quero ouvir o grito. Quero um fim silencioso. Observo seu banho lá, no mar de algum lugar qualquer, um lugar nenhum qualquer. Seu corpo está encharcado de uma água que a torna incógnita. Não sei onde está. Revele-se. Cante de novo. Grite de novo. Silencie outra vez. De novo. De novo. De novo. Seduza a poesia. Seduza meu lápis. Seduza meus dedos. Não sei onde está, o lápis comeu a curva do espaço e do tempo. Não existe falar. Só ouvir. Quero um fim silencioso.

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